terça-feira, 28 de novembro de 2006

O pátio é meu.


É o sentimento inconfessado de todos - -transversal, como agora se usa. E isso é mau? Nem por sombras. O sentimento de posse alimenta o ego. Mas se todos o usam, não há problemas? Claro que não. A concessão do uso, da partilha, fá-los sentir enobrecidos. O assunto é que é tabu. A mínima alusão à propriedade redundaria em catastrófica guerra civil. Posto isto, adivinharão com certeza que o pátio é um enclave do céu na terra. Mas não adivinharam, não senhor; trata-se simplesmente de uma questão adiada.
Ali, a mais antiga é a Vitória que teima pertencer ao dito quando vive para lá dele, lá para trás; no pátio só tem a arrecadação que não usa nem deixa usar. Nem a força de todos juntos a consegue demover, fará os argumentos solitários que foram lançando. Dizer que ela não ouve, não corresponde á verdade, ela ouvir ouve tudo direitinho só que a resposta é imbatível; olha, cerra os lábios, semicerra os olhos e: –Passe bem vizinha ou vizinho consoante o caso. Depois é vê-la afastar-se semicurvada mas tesa, silenciosa, como se de alma penada se tratasse.
O Alfredo mais a São já para ali estão desde o tempo em que o pátio ainda não o era pois a casa do Victor mais da Graça ainda não existia e assim sendo o que é ainda não era. Ficam logo ali à direita, ou á esquerda dependendo se falamos de entrar ou de sair. Na deles aparece a primeira luz do dia, ainda que, claro, de noite se trate. Acesa a luz sai a Ti São enrolada no xaile para atravessar a estrada e regressar com uma braçada de lenha e algum ovo no bolso da bata ou do avental - desculpem a imprecisão que no escuro não dá para distinguir. O ranger do portão nesta ida e vinda, dá o sinal a Ti Alfredo para saltar da cama, passar pela cara a água colhida da bacia de esmalte e de seguida limpar a face com a outra mão enxuta; a mão molhada, essa passa-a pela nuca dando assim por terminada a higiene matinal, ritual que já cumpre mesmo antes de se ajuntar á sua Conceição. Barba, perguntam vocês muito bem, isso é conversa para dia santo. Em frente deles, em frente deles fica para outro dia se disso me lembrar porque ou o sono puxa o tédio ou o tédio o puxa a ele.
Boa noite e façam o favor de descansar. Nada de galdérices que amanhã é dia de trabalho.

7 comentários:

Maria disse...

Sentimento de posse, seja um pátio, um cão, ou um homem... O ser humano gosta de ter, de possuir. É natural, faz parte, o qu'é que se há de fazer?*

*beijinhos da bolachinha "endemoniada"

jj disse...

Deliciosos estes seus retalhos de vidas... ou de uma, que é a sua?!

Jinhos.

Damularussa disse...

Retratos de vida, delineados pela mão de quem bem os sabe fazer...tu.

Volto breve.
Beijos

maria_arvore disse...

Todos temos uma rua que chamamos nossa: a minha rua.
E o que isso tem de bom é o acesso que a ela temos e não o possuirmos mesmo.
Como a vida efémera julgo que o que contam são os momentos e os acessos que conseguimos em cada momento. Possuir é como guardar uma múmia em vez de viver o universo inteiro.;)

Desculpa estender este lençol mas sou tão avessa a posses como a cemitérios porque, em ambos os casos, não me fazem feliz. :)

rui disse...

Olá Erecteu!

Boa noite
Já tinha saudades de ler os teus riscos e rabiscos!
Sempre disse que tinhas queda para a escrita. Acho que não menti!

Um grande abraço

Erecteu disse...

Um dia fora e vejam o que vim encontrar. É só festas! Desculpem mas começo pelo fim, pelo meu Rui.

Sentir que ele, o nosso Rui, anda por aqui é o quê? É como encontrar um amigo em estrada que ninguém pisa -não sei dizer melhor.
Um abração

Aqui só para nós, (d)escrevi o pátio e pensei apagá-lo. Ainda não o reli, nem me apetecia muito fazê-lo, embora soubesse que tinha que ir ao castigo por o ter deixado em aberto.
Marias, JJ, Damularussa vieram dar uma força que sinceramente não abunda.
Beijinhos.

Teresa Durães disse...

tem estado difícil para mim andar nos blogs :( já fui ao seu outro, agora andei a ler este, e coloco no primeiro o comentário. Gosto da sua escrita também. Penso que já o tinha dito, não sei.

(como deve ter reparado no meu andei uns dias...)

não escreveu nenhum romance?
(pelos comentários que li)

se não, devia e não o faço pela mera simpatia/graxa generalizada

(desculpe, sou demasiado franca para essas coisas, há quem chame outros nomes, pode escolher)

vou ao outro blog, lembro-me de ter largado uma pergunta

boa noite