terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O Guelas - Tempo real


Noventa e um dias era o tempo real, mas quando Pucarinho e Pombinho se voltaram a ver tinha passado, para eles, uma eternidade.
Os primeiros dias, no posto da guarda, viriam a revelar-se uma doce memória, face ao pesadelo que se seguiu.
Primeiro em Évora onde os três inspectores, à uma ou à vez não davam descanso, descanso mesmo. Depois em Lisboa, em pé ouviam repetidamente as perguntas e os insultos misturados com gritos e empurrões; quando os olhos se fechavam vinha o humilhante estalo em plena cara ou o jorro de água fria.
-BURRO, teimoso de merda, o teu camarada já contou tudo.
Podia lá ser! Se ele aguentasse não seria pelo compadre Pucarinho que eles pegavam.
Aquele corpo forte, desfeito pelo cansaço, já não obedecia. Os braços teimavam em baixar ainda que soubesse o que se seguiria. Há muito que horas ou semanas, dia ou noite tinham deixado de fazer sentido. O pensamento refugiava-se na imagem da terra e dos seus que para lá labutavam. Aí se refugiava.

apanha da maçã, Pissaro

Pois ali estavam, agora na mesma sala ainda que separados pelos guardas. Cruzaram os olhos e o que lhes restava do coração deu para entender que nenhum rachara.

*
**
Três anos para um, cinco para o outro, vá-se lá saber porquê mas fora essa a sentença. Sábia é a Justiça e com ela devemos aprender. O diacho é que não aprendem todos o mesmo e por vezes há alguns que não aprendem mesmo nada.

Mas eles aprenderam um mundo novo: que o sol também se deita por trás de uma ilha, que água do mar tem cheiro e que as traineiras não passam frente ao forte sem saudar por três vezes os que lá estão.
Os dias voltavam a ser mais curtos, quando receberam as primeiras visitas. Na cesta comum para os dois, vinha um pouco de todos: linguiça, azeitonas, queijo e ainda pães. Ah, aqueles pães com algum travo azedo, diz-se que do suor que a terra foi empapando desde que mouros, ainda, o grão lançavam depois da terra rasgada.





Do regaço de Bia saiu aquele papel.
No monte, o meu Zeca é o primeiro, porra.

13 comentários:

Maria disse...

Um romance.
Épico.
Histórico.
Comovente.
Inspirador.

beijinhos meu querido Erecteu

rui disse...

Amigo Erecteu

O Alentejo e as incursões dos famigerados PIDES, aos honestos homens que trabalhavam a terra.
Amigo, penso que estás a atingir uma grande maturidade na escrita.
Descreves estas cenas como ninguém.

Grande abraço

Erecteu disse...

Mina rica Bolachinha, assim atarantas-me.
Um beijinho

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Rui, histórias tristes para quem as viveu com dor mas que delas se podem orgulhar. Receio que pequem por alguma coisa. Não é facil tocar em coisas sérias pelo que só se conhece de ouvido.
Obrigado pela força
Um abraço

maria_arvore disse...

Ai Erecteu,
nem sei que te diga mas tu não rachas. ;)
Tu escreves de uma forma em que se visualiza as personagens e estas são pessoas, com todos os sentidos, a nossos olhos. :)
Ou o que quero dizer é que a tua inovação é contares uma história colectiva com indivíduos mesmo. :)))

marta disse...

Mostra bem o que se passava, os tempos difíceis daquele Alentejo de pessoas sempre tão íntegras.

Nanny disse...

Tens um excelente ouvido! Este teu episódio soube-me a excerto do "Até amanhã camaradas".

Não sei se me encantam mais as tuas estórias da escolinha, se este registo duro e forte do regime...

Só sei que gosto de te ler! Obrigada

Beijo no coração

Erecteu disse...

Maria-baum,
persegue-me a ideia de que todos os dias racho um pouco, perante as pessoas que visualiso.

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Marta,
o alentejo tem de tudo desde as giesta e papoilas ao cardo.
A integridade está nas pessoas e assenta na na afirmação das convicções.

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Nanni,
mas é a mesma história! (a do Zeca), com fim premeditado e que agora anunciado fica, para sábado próximo, dia de reflexão.

Se de início soubesse por onde Zeca ia caminhar ter-lhe-ia chamado Tiago mas quis o conflito com a professora que ele para ela tivesse nome diverso do que ele no monte ouvia.

Três - Beijinhos - Três

Elipse disse...

este é um dos melhores pedaços. sabe a linguiça caseira a matar a fome em cima de um naco de pão de côdea rija. pelo conteúdo? sim, mas desse muita gente já falou; só que aqui é a forma, desta vez é mais a forma, enleada no tempo, a desenrolar-se como se na planície se descansasse um pouco em cada sombra, olhando-se para trás depois, a ver o sol abrasando a terra. Lindo!

rui disse...

Olá Erecteu

Vim reler este excelente retratar de um nobre povo no seu quotidiano e que viveu as agruras do antigo regime.

Um abraço amigo

Abssinto disse...

(...)


Trocava tudo o que tenho e conquistei por uma vida assim como essa que tu contas meu amigo.

grande abraço

Erecteu disse...

Elipse,
Como te agradecer o como escreves sobre o que postei?
Aditaste saborosamente nacos que me apetece introduzir no texto.
Se alguma vez o reescrever, o que não é provável, gostaria que me permitisses fazê-lo.
Entendo que a escrita não é um acto solitário e que se encerre em qualquer momento.

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Rui,
Que dizer do que sinto por saber que o que pari dá para ser relido?
Fico-me por um contido, é bom.
Um abraço.

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Ab,
Intuo que tiveste a tua dose de intervenção motivada por ideais.
Pode ser que um dia voltemos a falar sobre isso.
Um abraço forte.

Nanny disse...

Mas eu sei que é a mesma história! (loira, nunca!)

Mas o registo é completamente distinto, um feito de ternura de memórias doces e saborosas, outro rasgado de vivências fortes e impactantes... é um dois em um!

E Thiago tinha-lhe acentado que nem uma luva (esse dito ainda viveu por uns meses numa casa dos meus avós...)!

Três - festinhas - três!

Erecteu disse...

Nanni,
Isto é apresentado despedaçado, os arradores são 3 ou quatro, pensei que pudesses não ter feito a ligação.
Desculpa. Afinal o louro assenta bem... é a mim :) o que é mau sinal porque os chaparros ao aloirarem têm o final prenunciado ;) longe vá o auto-agoiro.

Beijokas, bué.