sábado, 19 de maio de 2007

O alentejo a viu morrer

















A vida, esta coisa de pequenos nadas, de encontros e desencontros, de sol, searas e vento
Ousar pedir não dá. É lutar ou fugir de cá, é clamar resistir já.
Um magala, um corpo, uma bala, um morto jaz na vala
Puta de luta de vida perdida.


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

CANTAR ALENTEJANO de Vicente Campinas

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Catarina Efigénia Sabino Eufémia (nascida a 13 de Fevereiro de 1928, morta a tiro a 19 de Maio de 1954) foi uma ceifeira alentejana analfabeta que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada, aos 26 anos, pelo tenente Carrajola da GNR em Monte do Olival, Baleizão, perto de Beja, Alentejo. Catarina tinha três filhos, um dos quais de oito meses, que estava no seu colo no momento em que foi baleada. A história trágica de Catarina acabou por personificar a resistência ao regime salazarista, sendo adoptada pelo PCP como ícone da resistência no Alentejo. Sophia de Mello Breyner, Carlos Aboim Inglez, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, Maria Luísa Vilão Palma e António Vicente Campinas dedicaram-lhe poemas. O poema de Vicente Campinas "Cantar Alentejano" foi musicado por Zeca Afonso no álbum "Cantigas de Maio" editado no Natal de 1971.

6 comentários:

mariazinha disse...

um dos ícones da minha infância... tanto que a minha filha se chama Catarina... por causa dela.
soube bem ouvir o Zeca... outra vez.
obrigada.
beijos

jj disse...

Tinha a minha idade...

Ainda bem que pessoas como tu se lembram dela, a homenageiam e dão a conhecer.

Jinhos.

maria_arvore disse...

Isto é que uma homenagem inteira que até o sangue de Catarina te dá cor ao blog. :))

E como só a chuva cai do céu, a vida é conquistada a pulso, como ela o mostrou. :)

Nanny disse...

A história de Catarina Eufémia sempre me tocou... hoje marejaste-me os olhos, rapaz!

Este cantar do Zeca é um verdadeiro choro...

Beijocas, rapaz

heidy disse...

Juntar Zeca e Catarina Eufémia, é trazer de volta memórias. Precisamos de icons como esses para voltar a ver a liberdade da forma como eles idealizarm. Tenho saudades da minha infância por causa desse sentimento. Sou filha do pós 25 de Abril, e assumo-me como tal, até ao tutano. :)

Elipse disse...

gosto de baladas.
e há dias em que quanto mais tristes mais me satisfazem a vontade de chorar.