quarta-feira, 2 de maio de 2007

É só fumaça



Fumar é um desafio tão grande como deixar de o fazer.
Começei aí pelos seis (6) anos. Cigarro roubado do maço de um tio, partilhado com uma prima, deitados na cobertura de um terraço a que dava acesso à casa das máquinas de um elevador.
Era porreiro!
A prevaricação multiplicava-se com a troca de acesso ao que cada um tinha que o outro não tivesse. Era porreiro! Tinha de bom o risco de sermos vistos pois o prédio em frente tinha mais um andar.

De tabaco no bolso comecei a andar lá pelos onze anos. Era porreiro! Meio cigarro em cada intervalo, quando havia, partilhado com os que não tivessem,
-Dás-me uma chupa?
-Vá, não abuses.
Aos do terceiro ano lá tinha que ir dando um cigarrito, pois na selva interna que era o colégio, o lugar no grupo vai-se aprendendo, como aprendem os chimpanzés, tal e qual. Dava-me um ar importante e compunha a capa e batina que fedelho passei a usar, lá para os treze anos, e como era comum naquele colégio.

Deste modo fumei até ao dia em que saí da tropa.
Há meses que o pessoal projectava esse dia de liberdade:
Praia ou viagens de um mês era o mais comum. A mim, por opção e necessidade de me desconspurcar de dois anos e meio de zona de guerra e de um mundo kafkiano, calhava-me começar a trabalhar logo no dia seguinte. Faltava uma boa forma de comemorar. Decidi secretamente na véspera do grande dia 12 de Junho: Fumo o último cigarro a passar a porta de armas e não vou ao barbeiro o mesmo tempo que estive na tropa.

Cada vez que me apetecia um cigarrito ou quando passado o stress da privação, via alguém puxar dele, sentia o prazer de estar livre.
É estúpido mas era porreiro!
Fui perdendo este prazer à medida que fui deixando de sentir falta do tabaco e deixei de receber elogios pela força de vontade e coragem (!). Felizmente o cabelo foi crescendo, lembrando o que não queria esquecer. Ao barbeiro não fui durante trinta meses, é verdade, mas a barba, mais que o cabelo, ganhou tais proporções que cedi aos argumentos da minha companheira e aos cuidados da sua tesoura e um pente laminado. Estou-lhe eternamente reconhecido; primeiro porque me aliviou de uma penitência dura, segundo porque me deixava com suficiente ar de troglodita que me tranquilizava relativamente à jura não cumprida verdadeiramente.

Estive, assim, sem fumar o tempo que estive na tropa, até que a isto voltei.
Como? Eu talvez conte.
Mas só se pedirem muito. É mentira, conto se der na bolha.

3 comentários:

Nanny disse...

Olha, bem queria deixar... mas o vício é grande e as pressões legais só me irritam e me dão mais vontade.

Ainda hoje respondi a 3 colegas que dissertavam sobre a nova lei e os impactos dela: "Menos conversa e eu não iria fumar este cigarro"
Apre! Já me estavam a irritar!

diefe disse...

(E como irritam!...) Mas conta lá, Erecteu, se te der na bolha, pq nós queremos saber... :) Bom fds

Maria disse...

Cada um sabe da sua vida e dos seus pulmões. E se querem mesmo fumar ao menos que não fumem a merda desses cigarrinhos feitos de papel... Gastem o dinheiro numa caixinha de charutos dos bons.