sexta-feira, 13 de março de 2009

Merda de outono

Num dia primaveril de Março, voltava minha mãezinha, duma entrega de café e bacallao, que fizera, num monte que distava não mais do que um quilómetro de Rosal de la Frontera. Regressava aviada de açúcar e caramelos, quando já a menos de uma légua de Vila Verde de Ficalho poisa a trouxa e se agacha agarrada às saias desatando numa risada pegada. As camaradas que com ela vinham é que não estavam para brincadeiras…
-Raio da moça, toc’andar c’a muito pa palmilhar.
Mas ela ria, ria agarrada às saias até que foi alcançada por duas camaradas mais pesadotas.
-Anda Bia que as outras já lá vão.
Mas a Bia agachada é que não dava mostras de querer andar. Celeste, a quem até dava jeito acalmar a pontada nas cruzes parou amparando os rins.
-Mas que tens tu garota?
-Mijê-me pelas pernas abaixo.
-Ai Jesus, qual mijo! Ai que se te arrebentaram as águas.

Não se pode escolher o nascimento, assim nasci em casa do Dr. Alexandre, em Vila Verde de Ficalho depois de lá chegar de carroça com a minha mãe ateimando que nã podia ser pois dores nem vê-las, dizia.

Teria sido bem mais giro ter nascido numa gruta, mas foi assim mesmo, palhinhas pastores e magos é só para alguns, pelos vistos. Resta-me o consolo de lhe ter dado uma horinha feliz.


Como adivinharão o Dr. Alexandre acabou feito em padrinho o que, se tiver dado muito jeito a minha mãe redundou numa chatisse para mim: ainda não passara um ano e no dia em que a minha mãe fazia dezoito anos lá tive que mamar com o ritual um pucarinho d’água pela cabeça abaixo, depois disso, julgo que ainda não aprendera palavrões e já tinha que declinar na perfeição: A bênção meu padrinho, seguido de beijo na mão enfeitada por anel que, antecipo, mais do que uma vez provei na cara. Estranha maneira de um médico tratar da saúde, como ele gostava de dizer. Tirando isso, e pouco mais, até não era mau de todo pois fui tendo as mordomias distribuídas na cozinha pela criada: dos pasteis de baínha de grão à linguiça do fumeiro tudo me ofereciam, pena é que comer não fosse o meu forte.

Com o meu nascimento mudou a vida de minha mãe. Deixou as corridas até Espanha passando a fazer o que calhava na casa do Dr. Alexandre, isto até mê pai voltar da tropa, por onde andou mais do que a conta, como paga de alguma falta de aprumo que lhe sobejava noutras coisas. O certo é que entre detenções e prisões efectivas, entrou garoto e saiu homem mais que feito, pelo que tivesse sido não sei, mas quando chegou a Vila Verde, o Dr. Alexandre ter-lhe-á dito:
-Vê lá se deixas de ser gabiru, Xico, olha que tens um filho para criar.
Lá foi criando, não a gosto do Dr. Alexandre, mas ao meu. Passámos a viver numa casita, com um telheiro adossado, junto à extrema do outro lado da quinta do Dr. que dava para uma azinhaga.
Resta-me uma memória feliz dos primeiros anos que ali passei. Entre a horta e a oficina de meu pai os dias corriam bem.
Formaram-se duas equipas: eu e meu pai defrontávamos minha mãe e o doutor.
De um lado da quinta aprendia as boas maneiras, no outro as maneiras boas. Gostava mais das últimas, deliciava-me ver a perícia do manejar as ferramentas: a enchó e a polaina, o maço e os formões arrancavam aparas de madeira de cujo cheiro ainda hoje não me apartei; era bem melhor do que comer de boca fechada e manter os cotovelos junto ao corpo sem nunca poderem poisar na mesa, não há amêndoas nem pão-de-ló que o paguem.
Os confrontos entre as duas equipas lá se iam equilibrando mas houve um que perdemos irremediavelmente, ia fazer seis anos e, unilateralmente, os outros decidiram que eu iria para a escola. Porra de Outono!

Assim, rumo ao futuro, teve que marchar Veiga, Jaime Veiga, mesmo sem guia de marcha passada.

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4 comentários:

sagher disse...

amigo erecteu, o alentejo é sempre um lugar de belas e únicas histórias, ou antes de recordações felizes

maria_arvore disse...

Mas o Jaime Veiga não vai ver que a escola lhe dá um novo pão de ló - o da leitura- e perceber que em nós são conciliáveis vários mundos?... :)))

Se a continuação da história não seguir este caminho, eu leio na mesma porque cada naco da tua escrita é pão de ló. :)))

Erecteu disse...

Sahger,
O Alentejo é, mas nã só... há histórias tristes também mas, essas são pa esquecer.

Erecteu disse...

Maria, meu pão de dó :)
Como eu disse no inicio a história já foi escrita, e eu só tou aqui pa narrar tudo Timtim por Tintim, à manêra d'Hergé sem fantasias ;)Vamos ver como foi...