sábado, 2 de junho de 2007

Provincianismo


Sábado, lorpamente, além Tejo, oiço gostosamente Mozart sem saber se é a 39ª ou a 29ª, sei lá se posso confiar no Independente, e leio com ar de simplório arrogante:
E escrevinho entre umas fumaças, sorrisinhos irónicos, e consultas do Francisco Torrinha.

“O resto é paisagem” é uma expressão utilizada, normalmente, em contextos de ironia provocatória, de forma que se enquadra no domínio da afectividade.

-Onde vais?
-Para a província.
-Ah! Que bom. Bons ares, gente boa, boa comida… O resto acrescentam vossencias, o que vos aprouver.

Mas só? Não.
Sabemos que Lisboa é a “CAPITAL”, a cabeça, pelo que é incontestável: O que é bom para a cabeça é bom para o resto, faço jus, sem prescindir da verdade inversa.
Já na jus romana se entendia tão simples principio e aos territórios conquistados fora da “Itália” (leia-se Roma em sentido lato), às províncias e aos “provincialis” eram reconhecidos os direitos de Roma, o que só prova a importância da estruturação administrativa e a requintada sensibilidade dos nossos ancestrais patrícios.

Regozijo-me com a herança preservada. Aprecio o requinte embora, confesso, o tente disfarçar sem saber bem porquê nem interessa, pois para o caso em questão está a provincial importância da herança requintada.
O importante, de capital importância, é a subtileza, a acuidade e finura herdadas, como por exemplo, quando na ONU, encostados entre a tribuna e o espaldar das cadeiras, víamos o nosso império colonial ameaçado. Entregámos de mão beijada o ouro aos bárbaros bandidos? Nem é preciso responder!
Qual colónias qual quê! Um só país uma só nação, do Minho a Timor, um Portugal semeadinho de províncias é que era, vissem bem, exigíamos orgulhosamente sós.
Pouco atempadamente, na década de sessenta, fizeram-se as maiores reformas da nossa história: Onde se lia Colónia passou a ler-se Provincia, despediu-se o Ministro das Colónias, a CCN - Companhia Colonial de Navegação foi-se a martelo e pouco mais que eu me lembre, mas já foi muito.
Os brancos de segunda e os indígenas mesclaram-se em Portugueses com os Portugueses de gema. Foi tão bonito!
Benfica e Sporinguê,
rebita e fandango,
Afonso Henriques e Rainha Ginga,
muamba e cabidela,
avé-marias e batuques,
coisa com coiso.
Não vos massacro mais, senão falava-vos dos iluminados míopes deserdados que do alto de uma das sete colinas enxergam o deserto nesta margem, enquanto me perco em pensamentos ouvindo lá do azul aviões passando para o Portugal viçoso.
.




Barragem do Ferrozinho by Lorpa


5 comentários:

Maria disse...

Nasci e fui criada na capital... mas um dia espero emigrar para o deserto ^_-


beijinhos Erecteu*


*escreves com cabeça, tronco e membros (todos os membros, todos...)

Erecteu disse...

Bolachinha,
:)
És uma cuidadora ;)

Faço os possíveis para dar uso aos membros todos ;) fico feliz por achares que cumpriram, o que até a mim me surpreende.
Bjs

maria_arvore disse...

Nascida alfacinha nessa capital que expulsou as suas gentes para o deserto e zonas saloias por via de outros interesses imobiliários, vim para o deserto mas com a convicção que já antes tinha que o provincianismo do resto do país ser paisagem é o reflexo do provincianismo dos governos que não sabem desenvolver o país inteiro e fogem da regionalização como o diabo da cruz.

jj disse...

Nao tenho nada contra Lisboa, até gosto da cidade. Mas uma coisa é certa, gastam-se milhoes numa cidade de si pouquissimo produtiva. À conta disso o Porto foi, é, e será, pelos tempos dos tempos, a Província, ou a capital da Província, ou... enfim. À conta disso Coimbra está a deixar de existir. À conta disso Braga ressurge do nada, talking about productivity... Isto do resto ser paisagem resolvia-se com uma coisa chamada regionalizaçao, mas quem quer saber disso em Lisboa? ;)

Jinhos.

Erecteu disse...

Maria,
O centralismo é um complexo terrivel.
Quem tem medo nem pimba nem sai de cima.
Em qualquer serviço pede-se comprovativos, por vezes até sabem ser falsos e são aceites!Não basta pedir uma declaração que a ser falsa, torna qualquer acto nulo e é passivel de responsabilização.
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JJ
Pelos vistos querem, mas não é no sentido de a concederem.
O mais fácil é dizer não. O imobilismo grassa, quando não desgraça.