segunda-feira, 12 de março de 2007

Por tudo e por nada



Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada


Acrílicos Tania Leal

BOLERO DO CORONEL SENSÍVEL QUE FEZ AMOR EM MONSANTO

poema de Antóno Lobo Antunes

BOITEZULEIKA

11 comentários:

psique disse...

Gostei de reler este poema e que bem enquadrado nas imagens...

maria_arvore disse...

Obrigada por esta versão musical que eu só conhecia a do Vitorino.
E as telas assentam que nem uma luva no post:mulheres pasmadas à espera.

Maria disse...

Grande António. Grande, grande, grande...

Nanny disse...

Bem!!!! Que reviravoltas... andas com uma injecção de criatividade... ai ai!

Adorei, volto logo para ouvir, que aqui não dá!

Beijoca da gata

Abssinto disse...

Sensível.

"Eu que me comovo
Por tudo e por nada"

O Sergio godinho tem uma música com o mesmo título. Abraço

rui disse...

Olá Erecteu

A gatinha disse que estavas com a pica da criativadade em alta, e eu estou de acordo.
Está tudo a preceito!

Grande abraço, compadre

jj disse...

Fenomenal! A conjugação das imagens com o poema está soberba. Parabéns!

Jinhos.

della-porther disse...

gstei da composição

beijos

della

Maria disse...

Tenho um desafio para ti, fofo ^-^

Espero que aceites...

beijinhos e boa noite

Elipse disse...

um beijo a correr e de passagem, mas ainda assim cantado nesta música solta.
tenho pouco tempo... mas volto.

lonesome disse...

sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a tal senhorinha
que não tinha casa.
tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele janeiro
dos anos setenta.

ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém.

não havia lua
não havia estrelas
e não tinha abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

o seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela:

verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
e verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.