domingo, 17 de dezembro de 2006

Ainda é quinta

Rosa pousou a cafeteira, retirou o prato; voltou com o passador de pano e serviu habilidosamente o café, para si e Alfredo, sentou-se; Nereu levantou-se, retirou o seu prato que pousou na pedra de granito ao lado do lava-loiça, preparava-se para se escapulir mas foi travado; –Fruta. –Não quero; Rosa não se comoveu, –Toma, estendeu-lhe uma maçã. Contrariado deu-lhe uma dentada, -Posso ir lá para fora? –Trás o paliteiro; cumpriu e raspou-se direito à’dega.
Para ali ficaram beberricando em conversa perdida às tantas interrompida pelos sons da sanfona. –Lá tá ele, convencido que sa… -Deix’ó, interrompeu Alberto, deix’ó tomar o gosto. Os sons continuaram desordenados percorrendo a escala, ora subindo ora descendo, os tons cumpriam sem regra, caprichosas intensidades; -Faz-se hora, disse Alfredo ao levantar-se, -Vá com Deus. Desceu a escada e deu com ela de costas, imóvel. –Boa tarde, Sra. D. Gertrudes. –É o rapazito que toca?-Quer dizer…, é sim, minha senhora. –Ao lanche mande-o ter comigo, respondeu-lhe, virando-se de novo para mirar, ao fundo, o que se adivinhava do ribeiro.
Alfredo foi pr’ádega, interrogando-se do que quereria a velha. Ao entrar ficou a observá-lo: cabeça descaída levemente inclinada para ali estava o gaiato, suavemente dedilhando, por vezes franzia o cenho e tentava repetir sequências de sons; ao dar por ele parou de imediato, esfregou as mãos nas pernas e pediu-lhe –Toca? Não havia forma de escapar. –Só uma. Foi essa e mais duas antes de lançar mãos ao trabalho.

Dirigiu-se ao alambique que iria fazer um ano que estava parado, enorme, na sua dignidade de cobre velho, era bem capaz de queimar de uma vez uns bons três almudes; ajudado por Nereu foi-lhe devolvendo pacientemente a sua cor e brilho à medida que ia retirando o verde, uma após outra a sua roupa ia também saindo até ficar em tronco nu com o suor a escorrer-lhe por todo o corpo. Por fim, percorreu-o em volta, mão no rim, em rigorosa inspecção, acendeu um três vintes, deu-se por satisfeito.
Lavou-lha a cara, os braços e as mãos sem piedade nem dó pelos queixumes, dadas as últimas recomendações, entregou-o a Rosa, lá na cozinha; esta por sua vez concluiu o que Alfredo começara tentando pentear o teimoso cabelo de redemoinho indomável; conformada acompanhou-o pelo longo e escuro corredor, interrompido a meio por três degraus. Fez-se anunciar antes de introduzir Nereu. Na enorme sala nem o fogo da lareira nem os quatro imponentes janelões bastavam completamente ao frio e à claridade; a voz de Gertrudes soou por detrás de um cadeirão, –Anda sentar-te aqui. Nereu, pequenino, seguiu pela mão, sentou-se à frente da Sra.; esquecido da lição para ali ficou sentado, mordendo o lábio inferior, batendo com os calcanhares no sofá; angustiado viu Rosa sair para ir buscar o chá. O interrogatório parecia não ter fim mas lá foi respondendo: –Nereu; –No pátio; –Com a minh’avó; -Maria; –Maria Mota, e assim por diante até o chá chegar; mas nem ele nem as bolachas o confortaram. Com o tempo ou pelo adoçar dos olhos de Gertrudes, a voz foi-se soltando.
Sim minha senhora, gosto de música, mas não sei tocar nada. Gertrudes levou-o até junto do piano. Gostavas de aprender? Elevando os olhos para ela, respondeu com a voz embargada: Gostava muito, minha senhora.
Afagando-lhe a cabeça, Gertrudes: –Então está bem .
Pobre criança saberá onde se pode meter?

20 comentários:

Maria disse...

Nereu, rapaz de sorte :)
O piano é um instrumento tão especial. Não o podemos levar para todo o lado, não podemos tocá-lo em cima de uma árvore como se fosse uma gaita, nem tocá-lo numa roda à volta de uma fogueira como uma viola... mas a intimidade de uma sala, o piano enorme... não há nada mais bonito.

beijinhos

rui disse...

Olá Erecteu

Então não é que o gaiato, tem queda p`ra musica!
Muito bom, Adorei.

Um grande abraço

PS. Não te esqueceste do saco de coar o café.
Detalhe espectacular!

Nanny disse...

Esta tua quinta, sempre cheia de aromas e sons...!

Que delícia passar por aqui.

Beijos

Elipse disse...

leio os teus textos ainda sem conseguir comentar porque os apanhei pelo meio. tenho de aproveitar um destes dias do intervalo "natalício" para ir lá abaixo e deter-me um pouco. Deter-me no conteúdo, quero eu dizer. Para já, gosto do estilo "familiar", dos regionalismos e de uns detalhes de cheiro e cor.
Confesso, contudo, que ando à procura das falhas (formais) para poder ter sustento o que possa escrever. Sou leitora exigente. Hoje pensei: vou ver a adjectivação, que (tu sabes) às vezes exagera o estilo.
bem... tirando os janelões imponentes, a sala enorme, o longo e escuro corredor, o teimoso cabelo de redemoinho indomável e a voz embargada... o resto está bem.

Não me entendas mal... quem me dera que os meus leitores me apontassem defeitos em vez de dizerem simplesmente "que lindo!"

Agora, sim, já posso dizer que é um prazer ler-te.
deixo um beijinho.

maria_arvore disse...

Adoçará os olhos de Gertrudes ao palmilhar as teclas?...:)

Erecteu disse...

Maria,
O piano é, por isso, um instrumento escondido para muita gente, a sanfona não.
Um beijinho

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Rui,
Os putos têm sempre queda para alguma coisa. Neste caso tem para os disparates a que o Erecteu o sujeitar.
Um abraço.

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Nanny,
Tem os cheiros que eu gostaria de sentir ou de ter sentido.
Um beijinho.

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Elipse,
Um sincero obrigado.
Puseste o dedo exactamente na ferida.
Ando para aqui a pensar se não deveria era ter juízo. Um beijinho dos grandes.

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Marie-Baum
Gertrudes não é doce. Por vezes distrai-se mas emenda a mão muito rapidamente.
Um grande, grande

Elipse disse...

Erecteu, define juízo.

jj disse...

E.,

Que é isso do juízo? :(

Ai, ai, ai, ai, ai...

A Elipse não apontou defeito nenhum, algumas redundancias apenas - que pode limar (se assim o entender) ou não: isso também pode constituir um estilo, vá! :P

Jinhos.

P.S. Anda a pensar demasiado. Não pense, escreva - ficamos-lhe agradecidos.

Maria disse...

Escreve mas'é e faz ouvidos de mercador às críticas literárias. O teu blog está acima dessas coisas.

beijos para o fofo mais fofo de todos ^-^

Elipse disse...

quanto ao juízo... todos gostamos do canto das cigarras. E que falta elas fazem no mundo!
Beijinho a cantar poemas. Que eles nunca faltem nas nossas palavras.

jp disse...

ele até sabe ou desconfia.
mas poder passar os dedos nas teclas frias é mais do que apelativo erecteu
bjo

Rafeiro Perfumado disse...

A cena inicial fez-me lembrar a minha mãe:
- Queres sopa?
- Não...
- Tens de comer!

Belo texto. Um grande RAUF para ti!

rui disse...

Olá, amigo Erecteu

Vim mais uma vez, saborear-me com a leitura deste excelente texto.
Amigo,todos os bons conselhos são bem vindos, por isso acho que deves dar ouvidos a todos os comentários válidos. Se achares que tens correções a fazer faz mas, por favor, que não desvirtue o teu inconfundível estilo.

Um abração

Erecteu disse...

Aterrei agora nestas terras de alem Tejo. Lisboa ficou para trás, algumas (poucas) compras ficaram feitas. Vamos ao "trabalho".

Elipse,
Neste contexto, juízo, quer dizer que considero a escrita uma forma de expressão elevada. Sinto-me algo atrevidote pôr-me para aqui a debitar estes textos. Sinto-os muito pouco consistentes na forma, para alem de que vou indo no mínimo ao zig-zag sem saber onde irei parar.
Os teus reparos foram oportunos. Reconheço que devo ser mais cuidadoso e deixar-me de rodriguinhos.
A última coisa que desejo é que alguém deixe de comentar espontânea e sinceramente.
Quando não concordar com qualquer reparo obviamente que também me assiste o direito de discordar.
Um agradecido obrigado.
Bjs.

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JJ
A Elipse foi preciosa. O juízo está explicado?
Beijokas.

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JP
Passará por lá as mão. Quando e como não sei.
Bjs.

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Rafeirão
Mãe é Mãe e com comida elas não brincam.
Um abração

Rui,
Obrigado pela força.
Quanto ao estilo, tomara eu saber qual é.
A expressão das opiniões na blogosfera é essencial e inquestionável.
Um abração.

Damularussa disse...

Gosto da forma como nos "prendes" à tua "estória". Estilo muito próprio e inconfundivelmente teu.
Desejo-te festas felizes e que o sapatinho esteja repleto de coisas boas:-)

Beijos
Damula

Abssinto disse...

Admirável vida do campo.

Abraço!

diefe disse...

O piano... espero que ele aprenda, que ela o ensine bem. Fica nosso Nereu com uma "habilidade" que o enriquecerá para toda a vida! Adoro o som, apaixono-me logo pelo pianista! :):):)
BOAS FESTAS!

zédeolhão disse...

"Admirável vida do Campo???"

Vai lá dar de comer aos bichos às 5 da madruga, a rapar geadões e depois vem cá com poesia!
É que a bicharada come todos os dias e a terra não se cava sózinha!
Essas melancolias tradicionais já fedem!

rui disse...

Amigo Erecteu,

Quero te desejar um Natal Feliz, cheio de Paz, com muitas prendas e muita alegria.
Quem sabe se um dia não passas um Natal aqui na Madeira!
Tudo de bom pra ti
Um abração

Erecteu disse...

Um obrigado a todos, os que me fazem o gosto da visita.

Os afazeres cá na minha “quinta” não têm permitido, nem dar atenção ao “com menta” nem fazer a voltinha pelos meus amigos. Espero fazer hoje uma rápida voltinha porque não sei se o poderei fazer, tão cedo, depois.

DESEJO A TODOS UM FELIZ NATAL.

em especial à zédeolhão que pôs, finalmente, o olhito de fora.