sábado, 9 de dezembro de 2006

Pátio - nada de especial a referir

Até agora foi fácil; este é aqui aquele ali. Dizer como o pátio funciona é que é mais difícil, por isso não digo, vou dizendo. Vou passando por cá, e se vir alguma coisa que valha a pena, eu conto. Não é o caso de hoje, pelo menos a esta hora. De manhã ainda se viu a Conceição de missal, véu e terço na mão a bater à porta da Adelaide perguntando se a comadre ia à missa, que sim respondeu ela poderia lá ser outra coisa em dia de Imaculada Conceição. Não tardou a acabar de se arranjar. Comadres prontas postaram-se em frente uma da outra mirando-se reciprocamente em olhar que percorria a vertical que vai da cabeça aos pés, há uma arrancaram, direitas à porta; ainda no pátio hesitaram pondo-se agora numa estranha sequência de trejeitos de cabeça, reforçados pela boca, sobrancelhas e olhos. Depois lá se foram. Perceberam? Também eu não se não as tivesse ouvido mais à frente, –Mas porque irá ela à da tarde? Não se acostumavam afinal à ideia de Maria não as acompanhar no ritual do Santo Sacrifício. –É tão boa mulher. –Lá isso é, mas... assim foram desaparecendo estrada abaixo.
No pátio agora prepara Alfredo os atavios, para este não há feriado; enquanto nisto anda dá por Nereu que o observa do alto. –Onde vai? Alfredo moita. –Onde vai? Maria de pronto o repreendeu. Alfredo retardando o que fazia ia lançando olhares de esguelha a Nereu, até que decidiu não prolongar mais o seu sofrimento, –Se a tua avó deixasse, se me quiseres ajudar… o alvoroço instalou-se, a súplica naquela carita arrepanhada, o sim desejado, o tropel escadas a baixo, o inevitável: –Vai devagar, catano.
–Vizinha Maria, vimos pela tardinha; –E o almoço? –Comemos por lá; -Mas isso tem algum jeito, valha-me Deus. mas se estava decidido. –Levas a concertina; Maria deliciada viu-os agarrar as coisas, Alfredo fechar cuidadosamente a porta.
Estes lá se vão também mas estrada a cima direitos à Quinta grande, à quinta da Dona Gertrudes, Sra. D. Gertrudes como ela corrigia quem se descuidasse. Aqui Alfredo, consultado o Borda d'Água, quase põe e dispõe no tratar do que ainda resta da velha quinta, outrora rica em tudo; rica em água, o sereno mas severo cuidado de Alfredo garante o sustento de Gertrudes, que filhos e netos ía ajudando, por vezes até aos sobrinhos valia, quando por amor ou outra qualquer razão a visitavam. Hoje não é propriamente dia de trabalho e por isso a esta hora vai. A falar verdade não é só por isso, mais cedo fosse e Gertrudes predicaria sobre inconveniências de falhas aos deveres de um bom cristão; assim, talvez não lhe pergunte pela cor da salabita do padre, mas nunca fiando que a velha, nestas coisas de igreja não é mesmo de fiar.
Chegados arrumaram, na mesa de grossas tábuas da adega, a seira um, a concertina o outro. –Vamos ao trabalho? e aí vão eles, feliz segue Nereu, Alfredo, pés bailando dentro das galochas emprestadas.
No pátio nada mais digno de nota;
portas dentro de Maria da Graça, Victor toma-a nos braços forçando-a a um doce despertar.

13 comentários:

rui disse...

Olá Erecteu

Este pátio está a ficar cada vez melhor.
Hoje, caprichaste e recheaste-o de um gostoso conteúdo. Ficou tudo muito bem aprimorado e, nem te esqueceste da concertina.
Está um espectáculo.

Um abraço

jj disse...

Nada de especial a referir é modéstia, por favor!!!... ;) (Inicialmente até me assustei...)

Estou com o Rui, este pátio está cada vez melhor!...

Jinhos.

P.S. O meu avo costumava ler o Borda D'Água... :P Eheheheheheh!!!

mfc disse...

"O doce despertar" forçado... e tão comum!

Maria disse...

O pátio até tem música... Pátio das cantigas?

[somebody shoot me! - piada seca poços :( ]

Bom fim-de-semana e muitos beijinhos nessa cara fofa.

a tua,

Bolachinha

poemusicas disse...

Que instrumeto belo. Para mim, que sou músico, não existe som mais harmonioso e dolente.

Gostei do teu texto.

Um abraço

Naeno

Bad Lolita disse...

Patio lindo isso sim...

a musica é pura melodia :)

diefe disse...

Finalmente consegui tempo pra vir ao pátio!!! Claro que já me estava a fazer falta a visita...
Destaque de hoje: "...quando por amor ou outra qualquer razão a visitavam." Gostei! Saio, mais uma vez, aplaudindo!

Abssinto disse...

Adorei o ambiente rural, fizeste-me lembrar da Sertã, que tanto gosto. Abraço

Erecteu disse...

Rui, Obrigado. Pena que co pátio não se aviste o teu mar.
Abraço.

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JJ,
Assustaste-te tu e eu. Não havia de facto nada.
O papel em branco é terrivel
Um beijinho

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Fofa és tu e "prontos".
Viste que ão consegui fazer o TPC?
O puto está a ficar um pouco farto do meu blog e eu não o quero perder. Antes o blog.
Não desisti não penses.
Beijijijinhos

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Põe música.
Quiz ir atrás de ti mas estás escondid(a)o.
A minha cultura musical é muito básica, ao nivel do ouvido.
Um abraço.

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Big Bad,
Encantou-me a ladaínha. Não sou de rezas mas esta encantou-me.
Beijão, trovadora

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Dimi
Quando. É preciso que o quando não nos falte.
Beijões

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Absinto,
Um abraço especial.
Enrola-te numa onda* grande e fria. Dá luta e pica.

* não sigas os meus conselhos segue os teus.

maria_arvore disse...

O Pátio parece o guião dum filme de tal forma a escrita é visual. :)
Sento-me aqui à espera que a sessão recomece. ;)

Nanny disse...

Huummm... que bom!

Só faltam mesmo os cheirinhos e o som dos sinos ao longe.

Festinha de gata para ti!

Nanny disse...

Dizes que me agarras... mas assim "forçando-a a um doce despertar"?

rui disse...

Olá Erecteu

Vim passear neste pátio e conversar aqui com os vizinhos.

abração