quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Fujam que vem lá mais pátio

Da Graça já vos falei há uns tempos atrás, uns ouviram ou melhor, leram, outros não tiveram oportunidade mas ficam a saber que a sua porta fica ao canto mesmo ao lado da da Maria. Serão os que destoam nesta ilha, mais pela idade que os separa do resto, do que por qualquer outra razão. Para ali foram acabados de casar embora já não fossem estranhos quando chegaram, porque a montar casa andaram um ano a escorregar para os dois. Para além disso a menina Graça já era conhecida do cartório onde trabalhou até há algum tempo atrás. Porque não trabalha lá, agora? Explico: Corria tudo bem até ao dia em que o Dr. Sobral a chamou-a ao gabinete para lhe dizer –Graça, a partir de amanhã vem um estagiário; quero que o vá pondo a par do serviço, vá ensinando os procedimentos comece pelos assentos. Ah, o arquivo, o arquivo também. Assim foi. No dia seguinte lá estava aquele lingrinhas, logo pela manhã fria de Janeiro, sentado na escada, ou melhor no lenço porque o lenço é que estava na escada, mirando-a apalermado, enterrado no boné, desajeitado. Desajeitado era pouco; ao aperceber-se que ia abrir da porta, pôs-se á sua volta em passinhos laterais, fazendo sons de macaco e a retorcer o boné! –Entre, é o estagiário, não é? Pois o tanso, que outro nome não merece, palavra d’honra faz-me uma cena! Entra não entra, com encontrão pelo meio…-pró que estás tu calhada Graça Maria, pensou ela; e pensou bem digo eu.

Pacientemente lá foi mostrando os cantos e os livros da casa até chegar o Dr. Sobral que a primeira coisa que fez foi metê-lo no gabinete para uma conversa; para lá estavam eles, toca o telefone: –É da diocese da parte do Sr. Bispo, para o Sr. Dr. Sobral. Graça viu tudo, ou quase tudo.
Os primeiros meses nem correram mal. O rapaz de desajeitado foi-se tornando desembaraçado, sem dificuldades para aprender; tinha até de admitir que em arrumo e método podia pedir meças a ela própria; não se esquivava a nada nem ao pó do arquivo. Correram bem… com ele corriam porque com o Dr. Sobral iam piorando, especialmente após os telefonemas do Bispo.
Começaram a correr mesmo mal no dia em que o Dr. Sobral ao examinar uma escritura lhe pôs a mão na cintura e a começou a afagá-la paternalmente. Era o dia das mentiras, o tempo convidava a saia travada de tecido cinza e a camisolinha de malha. Sentia-se tão bem! até aquele estupor se atrever. Quando e como pôde refugiou-se no arquivo onde poderia verter as suas lágrimas, secas de raiva. –Que se passa, menina Graça? nem ali! A um passo inquiria aquele estupor direito seguro e doce. –Que se passa Graça? Ficaram a olhar um para o outro. Olhou-o nos olhos e viu-os límpidos sem qualquer mácula. –Não é nada, deixa lá; quis passar por ele mas viu o caminho barrado. –Sei tudo o que se passa, é por minha causa, disse ele antes de lhe virar as costas direito ao gabinete; um: –Pára, rouco, ríspido, semigritado estacou-o. –Depois conversamos melhor.
O arquivo passou a ser local das conversas. Na primeira foi feito o ponto da situação, avaliada a conjuntura: Bispo e Sobral estavam de acordo no que dizia respeito a quem melhor servia no cartório; nas que se seguiram não mais se entenderam. –Pões-te fora e vou eu a seguir. –Prá guerra, não? dizia ela; dois meses nisto, o tempo a aquecer era a conversa ao almoço partilhado no arquivo que nada mais tinha para pôr em ordem.

Entre teimoso e teimosa como se sai desta? Eu desunho-me dizia ele. – Parvo, retorquia ela; desesperado e sem argumentos agarrou-a pelos ombros , puxou-a para si sem sentir grande resistência, sentiu-a sim aninhar-se no seu peito. Pegou-lhe no queixo, a resistência foi afrouxando, beijou-a ao de leve nos lábios.


Nesta vida nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
Perdia o emprego, ganhava o futuro marido

13 comentários:

Maria disse...

Que romântico! [inserir bater de pestanas sonhador e uma mãozinha no queixo para dar um ar de menina acabada de sair de um colégio interno]

Nem a Max du Veuzit conseguiria ser tão romântica <3
Adorei!

beijos da tua bolachinha

Maria disse...

Vi o teu mail. Já respondi. Quando puderes vai ver.

*

jp disse...

:-)

Teresa Durães disse...

bem escrito, sim.Quanto a romântico, cada um tem o seu gosto :)

(uma letrinha maior ajuda a ler a quem usa óculos mesmo pouco graduados...)

boa tarde

jj disse...

Delicioso. Adorei!!!

É sempre bom demorar-me neste seu pátio! :P

Jinhos.

P.S. Pobre Erecteu, agora até o tamanho da letra, coisas de leitores ávidos e exigentes...
:) ou :(
... nem sei...

Nanny disse...

É! Também me queixo da letra! Gosto dela maior, mais redondita, sem perninhas para a dta e para a esqª. Esquisitices!
Mas gostei MUITO do que li - ameaço voltar!

Erecteu disse...

Pontos prévios
# 1-3 com a consolação do glorioso na UEFA. Coisa pa esquecer.

# Letra pequena: Experimentem fazer control e acionar a rodinha no sentido do peitinho. Descobri esta por acaso, mentira, foi o pessoal menor cá de casa que me ensinou. Resultado: deixei de chamar nomes a muita gente.
Dêem feed back, retorno se preferirem, OK?

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Bolachinha,
Está-me no sangue chego ao soft core e paro ;(
Na verdade comecei a escrever a pensar no fim que seria umas gandas maluquices no meio das estantes. Deu nisto!
Pode ser que vos conte a rebaldaria que vai lá por casa, não prometo.

Já vou, tou a ir à esquina do costume (bom) ;)
Beijinhos e até já.

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Nanny,
Não ameaces. Dá logo, ok ;)
Já t'apanho
Bjs

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Jp, Obrigado pela visita, até já.

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Teresa,
Diz-me se o contro+scrol funcionou.
Quanto ao estilo... no papel não passo desta pimbalhice chorona, que confesso não me satisfazer mas como sou tendencialmente insatisfeito... contento-me.
Obrigado porque todas as dicas são importantes.
Boa noite.

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JJ
ès uma fofa.
Cada vez que escrevo uma coisa destas só a publico porque me seguro por detrás do anonimato, doutra forma acho que não o faria.
Um beijinho de boas noites, se puder vou lá espreitar-te
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maria_arvore disse...

Erecteu,
tenho de destacar do texto esta frase maravilhosa: "Era o dia das mentiras, o tempo convidava a saia travada de tecido cinza e a camisolinha de malha.". Está lá tudo desde as intenções ao erotismo. :)

E é curioso notar que as tuas histórias se vêem como num filme. E esta faz-me lembrar o Cinema Paraíso. Porque infelizmente, nos dias de hoje, já ninguém se apaixona.;))

Maria disse...

Ninguém... Hmmpf...
Eu apaixonei-me <3

Erecteu disse...

Maria-Baum,
És tão, tão reconfortante.
Consegues ir lá ao fundo buscar-me ao buraco para onde me remeto em auto-censuras de pimbalhices.
Um beijinho.

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Bolachinha,
Adorada pimba enamorada.
Não vês que isso do amor já não se usa?
Veste uma roupagem self woman made, parte à caça do par ocasional em noite de sexta-feira de fim-de-semana prolongado, disputa o lugar de Raposas ou de Elsas. O que é que tens a perder?
Um amor, um simples amor?

Uma coisa que tão pouco se usa, Simplesmente.Maria, Bolachinha.

Maria disse...

Só não te dou um par de "bolachas" porque sei que não estás a falar a sério...

agora vou dormir que amanhã/hoje é dia de trabalho

Erecteu disse...

Está claro que estou a falar a sério, só que de forma irónica.
Sabia que tu percebias, todo o mundo percebe.

Os afectos são intemporais, o amor enternece.
Vai ao Lusofolia http://lusofolia.blogspot.com/(ganda blog) vê-o. Tens lá um abraço que espera por ti.

Amanhã/hoje X vai ver umas olheiritas. Aquilo eram lá horas!

rui disse...

OLÁ Erecteu

Mais um grande texto com a tua marca inconfundível!

Adorei

Um grande abraço