Viviam no maior T.zero que possam imaginar, open space. Ali dormiam, ali cagavam e foder era onde calhava se lhes apetecia.
Os putos, qual putos qual quê, os marmanjões, assim é que é, já na casa dos trinta, não descolavam e se a mãe não os enxotasse a esta hora ainda mamavam, e ao colo!
Bom, voltemos à felicidade. Não lhes faltava nada, esticavam a mão e era uma banana, uma toranja ou um mamão, por ali se bastavam dada a vantagem de serem vegetarianos. Atenção, só não valia maçãs pois havia a estranha superstição de que davam azar. Como abaixo refiro, fartei-me de investigar a razão de tal crença mas não consegui apurar com rigor científico que prezo e confesso copiar em estilo gesto e timbre até, ao Professor Hermano.
Desculpa, estava na felicidade, pois é. Nada lhes faltava. Eram tão felizes, tão felizes, que até chateava, pronto.
A mãe extremosa compensava uma certa dose de impaciência do marido que se vinha acentuando desde que após parir, fora acometida por um estranho humor que a levava a sopetar a manápula do parceiro quando este lhe afagava a bunda. Mais tarde, já todos tinham ido desta para melhor, passe a figura de estilo cujo nome não me ocorre, ah! eufemismo talvez, se veio a designar por depressão post-parto. Tenham paciência que me desvio, eu sei, falava de impaciência. A patriarcal impaciência acentuou-se desde quando ainda putos nas brincadeiras, os gaiatos brigavam.
Consta que as primeiras brigas aconteceram, um ainda mal andava, quando brincavam com um cágado em cima de uma enorme laje que por sinal viria muito mais tarde a ser utilizada como chapéu ou tampa numa anta, para uns, dólmen para outros. Foram crescendo e as putas das disputas não paravam, aumentavam até em baritonos berreiros com expressões que inventavam no momento e – cito Umbeto Eco, que sabe destas merdas para caralhos – viriam a dar origem à chamada linguagem venácula, que só uso informalmente e da qual nesta comunicação de cariz científico sou obrigado a abster-me.
-Ai é? Queres barraquinha! – dizia.
Dizia, levantava-se, pegava numa, ovelhinha, ia para trás de umas moitas. Voltava uns tempos depois com um sorriso nos lábios, olhar sereno de borrego, cara de anjo por inventar. A paz voltava; às provocações não ligava e quando a coisa era demais… lá pegava ele na ovelhinha e seguia para trás das moitas, até que um dia… estavam todos eles a dormir a sesta, cada qual debaixo do seu carvalho ("Quercus suber", para ser mais preciso), ouve-se um ganda e seco estrondo na sêca tarde que a Agosto corresponde no nosso calendário (mas que de tal forma não era designado, atentem ao facto onde espaço-temporalmente decorre a acção) que os faz dar um pinote para fora dos sonhos onde estavam alapados e alapardados, apardalados, sabiam lá com o cagaçoi que apanharam, altas chamas vêm eclodir das já referidas moitas e exangue a branca ovelhinha deitar a língua de fora para em seguida esticar um pernil.
-Raios foi ele, malvado.
-Fui eu o quê! Raios de feitio, acalma-te que moitas há muitas.
-Fodeste-me a ovelha.
-Fodi a ovelha? Que é isso de foder?
-Ainda te fodo um dia, vais ver.
O pai passou-se. Virou costas largou um peido e foi pó rio. A mãe lá ficou agarrada à bronca e tentou acalmar a situação.
-Oh filho, não foi nada o teu irmão, garanto-te.
A mãe ciente da verdade mas atrapalhada, pois não queria dizer que até estava a dar de mamar ao mano, dada a nega que na véspera lhe dera… vocês sabem como é, adiante.
-Não foi meu filho, nós até estávamos ali a jogar à sardinha, não é? disse piscando o olho de soslaio para o outro.
-Ai é? Então foi o pai, não!
Deus? Quem é esse gajo disseram os manos olhando à volta.
-É um ser omnipotente, omnisciente, omnipresente e invisível disse ela para se desenrascar.
Treze dias mais tarde, numa discussão sobre um pássaro em que um teimava que era pêga e o outro que não, que era melro, nervos em franja, sem moitas nem ovelhinha que o acalmasse, rapa do já citado cágado, eleva-o a duas mãos sobre a cabeça enquanto o voltava de papo para o céu e em movimento uniformemente acelerado, ZUMBA, afinfou-o pelo fraterno ocipital.
Lingua de fora, seguiu-se o esticar de pernil, pois Abel não era lá muito criativo.
A Caim, coitado, os pais mandaram-no para o cabrão do corno de África, não houve então Deus que lhe valesse.