segunda-feira, 9 de março de 2009

O meu nome é

Não é verdade que tenha estado para aqui de pau ao alto, pelo contrário, tenho-me espremido para ver se invento uma história; na verdade aprontei até duas ou três, mas Gracinda, felizmente, tem-me cortado as vasas, poupando-me à vergonha de vos apresentar coisas que, segundo ela, são mais velhas que o cagar.
Não fora ela e, salvo a vossa infinita tolerância, arriscava-me à denúncia de plágios, muito mal amanhados, da Agatha, de La Fotainne ou de um tal Xenofonte, ou será Xequepoint, nã sê bem como se escreve! Pois é, não fora ela e andava eu para aqui de orelhas aquecidas.
Quem é a Gracinda? Bom, é a minha prima, filha do Zeca, dois anos e picos mais nova, minha guia desde sempre. Gracinda, tem feito o favor de pôr e tirar virgulas, meter assentos nos sítios sertos e, por vezes trocar-me os esses por cês, quando as gralhas me ocorrem, ao longo da existência intermitente deste blog. Muita coisa mais há para dizer dela e provavelmente assim farei, mais tarde e... adiante.
Na verdade, para mal dos meus pecados, nã me sai nada que outros não tenham já, há muito, rabiscado. Resta-me, se para tanto tiver engenho e arte (esta, também não é daminha lavra, acho que é do Sócrates), resta-me, dizia, contar-vos a História da Minha Vida” .
Papem lá isto como prólogo e passemos à proposição.

Vou contar a minha vida à maneira do Hergé: Timtim por Timtim, não no estilo comics, qu’ela, minha vida, nã é para rir, muito pelo contrário; contá-la-ei à minha manêra, fielmente, com nomes preto no branco, sem a treta de que qualquer semelhança com… blá blábá.
Ficará, o que ficar, aqui tudinho escarrapachado, sem aleivosias literárias cerventianas. Recorrerei contudo a figuras literárias, e é certo que poderei fazer incursões por, sei lá… hipérboles e redundâncias mas eufemismos não, cá comigo, mesmo metáfora e alegorias são como as pernas de mulher, são coisas de pôr pó lado.
Nomes, locais e tempo ficarão aqui, fidedignamente registados, para sempre ou, pelo menos, até ao big crack final.
Desenganem-se já os que tiverem a expectativa de encontrarem algo de interessante nesta narrativa, pelo contrário; verão em cada linha, em cada conto (sem ponto acrescentado) episódios edificantes a ponto de fazer estremecer de inveja as relíquias de qualquer santo, Stª Teresinha Extasiada incluída.
Denunciarei os que me atormentaram e envolverei em névoa suficiente os que brilharam, salvaguardando assim a sua natural modéstia.

Para proposição acho que já chega. Passemos aos finalmentes:



A História da Minha Vida



O meu nome é Veiga, Jaime Veiga...

PS. Sultões e Sultanas, desculpem lá, por agora nã sê que mais dizer, façam o favor de imaginarem-me um Xerazade e voltem cá mais tarde, pá semana.
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Geni e o zepelim - Chico Buarque

domingo, 8 de março de 2009

Dia Mundial da Mulher

Não percebo porquê mas no Rio comemora-se assim o Dia Mundial da Mulher, calculo que seja por falta de uma Virgem Maria com a mesma escala.
Faço votos que se concretize o desejo da minha Maria: Que venha o dia em que o deixemos de comemorar.
Às mulheres, com um beijo, permito-me deixar esta lição que tanto me comove.



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Geni e o zepelim - Chico Buarque

quinta-feira, 5 de março de 2009

Silogismos cabalísticos

Silogismo 1



PS - Nuno Melo, do CDS, tentou que Francisco Sanches explicasse as razões pelas quais a sucursal de Cayman do BPN concedeu créditos de mais de oito milhões de euros a empresas de El-Assir, um empresário libanês presente no negócio de Porto Rico. O ex-braço-direito de Oliveira e Costa referiu que El-Assir veio indicado por Dias Loureiro.

Silogismo 2

  • O PS nunca teve nada a ver com Frank.

  • Sócrates nunca teve nada a ver com "auteletes".


  • Conclusão: Nem tudo o que fede é merda.

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Sambalando - Inti Illimani
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dejo con animo entero
ponga atencion mi compadre
que vienen nuevos negreros

sambalando, sambalando
que tienes tu (samba)
que no tenga yo (2)

la gente dice que pena que tenga la piel oscura
la gente dice que pena que tenga la piel oscura
como si fuera basura que se arroja al pavimento
no sabe que descontento entre mi raza madura

sambalando, sambalando
que tienes tu (samba)
que no tenga yo (2)

hoy dia alzamos la voz como una sola memoria (2)
desde ayancuncho hasta angola
de razil a mozambique
ya no hay nadie que replique
somos una misma historia

sambalando, sambalando
que tienes tu (samba)
que no tenga yo (3)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Caro Nino,

Chovia a cântaros, tantos quanto a pressa que me movia, um pouco menos que a imprudencia que me caracteriza. Depois de ultrapassar uns quantos panhonhas, ao entrar no trevo que dá acesso à Ponte Vasco da Gama, vi o cu do Toyota, ai uhê, fugir-me a bom fugir e barreiras de betão agigantarem-se diante dos meus olhos!

Anos de parvoíce ensinaram-me que nessas alturas é preferível manter os pés quietinhos, dar protagonismo ás mãos e, se possível, manter os olhos abertos até ao fim. Lá passaram os que atrás de mim vinham e lá fui eu atrás deles, atestadinho de adrenalina mas envolto numa espessa calma.

Na portagem, umas centenas de metros depois, não olhei para o lado mas imagino que estava a ser objecto de vários olhares, reprováveis talvez. Paguei com ar de sonso, arranquei de rabinho entre as pernas e então ocorreu-me o pensamento: Se Deus existe, é mesmo grande.

Até quando?
*
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Tal como eu, Nino passou a vida a acelerar, mas... há quem diga que foi acidente de trabalho.
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10. Caro Nino - Inti Illimani

segunda-feira, 2 de março de 2009

98 mil €uritos


Se tivesse 98 mil €uritos não sei o que com eles faria, contudo imagino o que sentiria se, por acaso, os visse ir pelo cano abaixo, ou melhor, pelo cu acima de uns quaisquer insuspeitos, bem cheirosos, mafiosos de colarinho branco, mãos arranjadinhas para melhor meterem as unhas em património alheio.

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
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Arredado destas lides, imagino que já se tenha perguntado pela blogosfera
como é possível o erário publico avançar com tanta milhão, à pala de não descredebilizar a banca e que seja possível ler este belo naco de prosa!!!
Cá pó Lorpa, bem se podem esfalfar na tentativa de credibilizar o que bem entenderem mas... não valeria a pena, antes, agirem de forma a credibilizarem-se a si próprios?

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Nã acredito em bruxas nem que nã possa haver fumaradas sem fogo, pois não; acredito mesmo que possam chover canudos do céu, que projectos muita mal amanhados possam, de facto, ser paridos por engenhêros muita bem apessoados, que até o verosímil oiro não passe de brilho promovido por magia negra ou toque cabalístico... acredito em tudo pois sou estruturalmente lorpa.

Acredito em muita coincidência
Creiam, sou um crente e como tal vivo bem.
Creio nos deuses, na mãe e no pai também,
Mas por favor tenham paciência...




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Roubo do Cabrito - Dicró

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Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Roubaram um cabrito na área e o roubo do bicho gerou confusão
formaram polícia mineira a fim de pegar o ladrão
nesse dia o compadre nortista que veio me visitar
levou uma surra danada, ficou mais de um mês sem poder levantar!

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Foi depois do cabrito assado que surgiu a confusão
é que o cheiro muito forte se espalhou no quarteirão
foi aí que o nego Patola, mais forte que cana de litro
gritava de faca na mão, vou sangrar, vou matar
quem roubou meu cabrito!

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Agarrou meu compadra na guela
o pobre coitado se apavorou.
Chorando e tremendo de medo
como o infeliz apanhou!
Depois ele andou pro meu lado mudando de cor
feito um camaleão
me deu um sopapo, se eu não me abaixo
hoje eu estava debaixo do chão!

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Meu compadre amarrado num poste
passou um sufoco que só você vendo
Crianças, senhoras e velhos
todo mundo lhe batendo
E se não fosse o Doutor Araújo o vereador do local
o povo e o nego invocado malhava o compadre até lhe matar!

Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!
Não foi mole, não,
meu compadre apanhou que nem um boi ladrão!

Foi ele doutor, foi ele doutor, foi ele sim
quero o couro dele pra ver se serve no meu tamborim
Foi ele doutor, foi ele doutor, foi ele sim
quero o couro dele pra ver se serve no meu tamborim
joga pra mim!

Para que conste:



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O Primeiro Dia - Sérgio Godinho

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Menino Jesus, Pai Natal?

Já não sei quem manda aqui!

Nã importa um beijo pa todos., tá?



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A Todos Um Bom Natal - Coro Infantil De Santo Amaro D

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Orçar

Já fomos muito bons marinheiros, aprendendo naufragando aqui e acolá, estudando e inventando aprendendo e ensinando, fizemo-nos aos mundo, enriquecemos e lamentavelmente empobrecemos, não por os recursos terem escasseado, mas porque à competente ciência naval não correspondeu uma competente governação política. O nosso Rei-Sol, D. João V, para sua glória, e nossa desgraça, deixou-nos o Convento-palácio de Mafra mais os seus carrilhões para conservar, num esforço que agora padecem muitas Blimundas e Sete-soís.

Depois com o advento da industrialização, os veleiros deram lugar aos vapores e paquetes. Foi um soltar de amarras e o proliferar de marinheiros. Para marinheiro passou a ser necessário saber fazer nós, fáceis de desfazer, soltar amarras, virar a proa a um destino e confiar que o São GPS (1) não falhe. Agora, marinheiros há muitos, mais do que as marés e tantos como os chapéus. Em cada jetski há um e em cada mota d’água dois ou três.

A navegação à vista de costa é, aparentemente, mais segura mas convém que não nos aproximemos demasiado pois ficamos mais sujeitos a percalços: golpes de mar; baixios ou rochedos submersos. Para passear serve, mas para quem tem um ponto de chegada longínquo, outro galo canta. Sabendo estimar a posição em que nos encontramos, em cada momento, há que manter o aparelho (2) afinado e se necessário, para vencer ventos contrários, bem saber bolinar (3) cerrando os dentes dispostos a fazer das tripas coração. Mas tal ainda não chega pois se em geometria a distancia mais curta entre dois pontos é uma recta, no mar o propósito não se alcança num só rumo, para lá chegar, mais rápida e seguramente, é preciso saber de ventos e correntes.
Orçar (4) não chega.

(1) GPS- Sistema de navegação por satélite
(2) Aparelho – conjunto de cabos, poleame e velame de um navio
(3) Bolinar – Navegar chegado ao vento, ou seja, próximo da direcção do vento.
(4) Orçar – Aproximar a proa da direcção do vento.
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

A crise já vem de muita longe

O nosso imaginário reflecte a imagem de Padeiras de Aljubarrota e Marias da Fonte. As nossas heroínas projectam, nos filhos, pelo menos neste filho da mãe, criado ao vosso dispor, valores que se foram tornando em dogmas.

A minha rica padeirinha, corajosa, capaz de enfrentar à pazada sete valentes castelhanos, não tem a existência confirmada e, reza a lenda, era feia que nem um bode não lhe faltando profícuos folículos pilosos.

A Maria, da tal Fontarcada, personificou a luta do povo contra: o recrutamento militar; a obrigatoriedade do registo de propriedades para introdução da contribuição predial; a proibição de enterros em igrejas, por questões de saúde pública.
Os Cabrãolistas, vai de impor; os mais avessos ao progresso, principalmente nas zonas rurais de acentuado fanatismo religioso, e os sobreviventes pró-absolutistas, vai de aproveitar a cena.


O rastilho aceso no Minho, rapidamente incendiou as Beiras, Trás-os-Montes e a Estremadura. (…) “feita por homens de saco ao ombro e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos”. Tal ia a moenga, heim!


Moral da história: cuidado com os mitos (principalmente os feios), porque para mito basto eu, e a Padeirita, coitada, se estava a ser fodida pelos liberais, não se livrou de ser enrabada belos absolutistas, que senhores duma ganda peida, para ela se estavam cagando.


Bom já viram que liberais e "neon"-liberais, nã papo e absolutistas nêm chêrari. Atão, (perguntam vocemessês) por aí nã se papa nada?

Pronto, vá lá, confesso que por vezes, com ou sem laranja, pactuo absolutamente.


Maria da Fonte - Vitorino

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Mesmo sem convite

Nã sê dançar, nã sê cantar e canto, por vezes danço levado a reboque desta ou daquela.
...
Recolhi-me naquela sala vermelha fugindo de um luar que me sufocava, que roubava o brilho às estrelas para o entregar, cúmplice da humidade fria da noite, à pedra da calçada. Aqui prevalece a penumbra, as palavras ciciadas não adquirem significado, os gestos são lentos, aparentemente calmos; as mesas abandonadas fazem companhia aos instrumentos lá no canto, aquele cigarro esquecido, esvaindo-se, liberta o fumo que desaparece no ar, mas dele fica o doce cheiro.

Vou sorvendo a bebida que me aquece a alma fria à medida que me afasto no tempo, resistindo ao regresso do vermelho desta sala turbulenta aquecida no embalado movimento de corpos e olhos colados, na cadencia sincopada das notas libertadas de um piano e do acordeão que abraças em meneio do corpo e, resisto, à perseguição do teu olhar vergando o meu. Não é verdade que estejas diante de mim, que me tomes e me arrastes, me domes a compasso de um piano tocando só; como marioneta presa dos teus dedos, suspensa nos teus braços e do calor da tua respiração, perco-me. Quero esquecer, o que, mudamente, disseste com o arquear de sobrancelhas, e me apartares do teu copo, rodopiando; quero esquecer as promessas que fizeste com os lábios fechados, ao tomares-me de novo; quero esquecer a última nota do piano pairando no ar, o teu corpo sobre mim debruçado, tal como a melodia do teu rosto.
Soam acordes, para me despertarem, trazerem a esta sala vermelha, quase cheia; o piano ataca seguido de um violino, um par entrelaça-se, por um momento quietos, desafiam-se num olhar e partem sem acordeão.

Quase tudo te perdoo, mas o teres levado outra na tua última viagem de mota, não. Um dia esquecerei o teu rosto, até o teu cheiro, talvez.

Percanta que me amuraste
en lo mejor de mi vida,
dejándome el alma herida
y esplín en el corazón,
sabiendo que te quería,
que vos eras mi alegria
y mi sueño abrasador,
para mí ya no hay consuelo
y por eso me encurdelo
pa´olvidarme de tu amor

Cuando voy a mi cotorro
y lo veo desarreglado,
todo triste, abandonado,
me dan ganas de llorar;
me detengo largo rato
campaneando tu retrato
pa´poderme consolar.

Ya no hay en el bulín
aquellos lindos frasquitos
adornados con moñitos
todos del mismo color.
El espejo está empañado
y parece que ha llorado
por la ausencia de tu amor.

De noche, cuando me acuesto,
no puedo cerrar la puerta,
porque dejándola abierta
me hago la ilusión que volvés.
Siempre llevo bizcochitos
pa´tomar con matecitos
como si estuvieras vos,
y si vieras la catrera
cómo se pone cabrera
cuando no nos ve a los dos.

La guitarra en el ropero
todavía está colgada,
nadie en ella canta nada
ni hace sus cuerdas vibrar.
Y la lámpara del cuarto
también tu ausencia ha sentido
porque su luz no ha querido
mi noche triste alumbrar.

Mi Noche Triste - Francisco Canaro

domingo, 12 de outubro de 2008