quinta-feira, 11 de junho de 2009

Palavras ... o vento leva-as.



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stória stória - mayra andrade
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Troco um dia de poesia por uma vida de ilusão.
Contrariamente à norma, virou-se.
Ah! És tu Deolindo e ponto, sem réstia de exclamação e muito menos de interrogação. O mulato corou, gaguejou, sem buraco para se enfiar e porque recuar não lhe ía no estilo, imaginativo, saiu-lhe na perfeição

- Ah, és tu Docelinda. Vejam só!


Se Docelinda achou piada ao dichote, mais piada achou à atrapalhação reforçando a sua segurança.
Queres vir comigo? Deolindo apontava rua abaixo, rua acima; coitado parecia um policia sinaleiro. Pior que um homem atrapalhado… só dois, né?


-Anda daí.

Apardalado seguiu-a; entre comichões no naris e pigarreios, levou quase um quarteirão a recuperar. Olhando-a pelo canto do olho viu-a abraçando os livros contra o peito não escondendo um sorriso malandro. E assim foram passeio fora, em silêncio, de sombra em sombra que as poucas árvores proporcionavam. Deolindo meio a medo dirigiu-lhe a mão ao peito, ela, fulminou-o com um olhar, meio estarrecido… -Eu levo-tos, disse, apoderando-se dos livros. Corada baixou a cabeça, escondeu o rosto com as mãos, parou e largou uma sonora gargalhada, ele respondeu com outra.

Assim, sim, digo eu, está estabelecido o equilíbrio, pelo menos no que diz respeito a rubores. Mas foi bom.

Dali para a frente não se calaram, vocês sabem como é, coisa de pouca importância: Beatles, actores e filmes bastaram até ela dizer: -Moro aqui; e ele: Ah!
Ela entrou o portão da vivenda e ele lá seguiu os seus passos, sem saber bem para onde.


Mas isto não pode ficar assim, porra! Mas quem manda aqui? Deolindo volta, já, depressa.


Deolindo voltou-se deu uma corrida apanhando-a ainda a meio da porta de casa. –Docelinda, logo vais às aulas?
-Claro.
-Posso…
-Podes, espero-te às duas.


Vejam como vai agora Deolindo assobiando baixinho com o coração a rebentar.

Docelinda entrou em casa chamando a mãe. –Estou aqui, filha. Aproximou-se feliz da mãe que compenetradamente ajeitava um arranjo de flores colocadas sobre o piano junto à janela e beijou-a.
Dona Fernanda de Miranda, retribui docemente o beijo.
-As aulas correram bem?
-Muito bem mãe.
Quem era aquele fulano?


Fulano? Cá para mim o caso está pior parado que crédito em época de crise.
Oh Mãe!!! É um colega.


Hum!!! Vai lavar as mãos para irmos pá mesa.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Deolindo

Esta é a história quase verdadeira de Deolindo Casanova, mulato de pé calçado, que fingia achar-se o mais lindo quando se olhava no espelho.

Esticava o cabelo ligeiramente descolorado com a escova ajudando com a palma da mão levemente embebida com Brylcream , coisa que o ocupava por uns dez minutos bem medidos. Sem deixar de fixar o espelho limpava as mãos na toalha pendurada na cadeira, dobrava-a impecavelmente, voltava a pô-la no sítio. Ajeitava a camisa de chita estampada cuidadosamente enfiada dentro da calça branca Lafinesse, enfiava no bolso direito o indispensável lenço branco que ele cuidadosamente esticava onde se sentasse, muito útil ainda também para equilibrar o enchumaço que sobressaía do lado esquerdo, por fim aspergia generosamente Old Spice nas mãos, passava-as pelas faces acabando por as fustigar energicamente, exactamente como vira Belmondo fazer naquele filme. Este era o seu ritual sagrado antes de sair de casa pelas onze, mesmo a tempo de assistir à saída do liceu.

A sua chegada era alegremente festejada de longe quando ele assomava no seu passo gingão, pernas ligeiramente cambadas à cavaleiro.

-Conta lá uma.
-Não me xates Kata. Kata era o nome desvirtuado do seu mais fiel admirador.
-Toma lá um cicarro.
-Hê pá, ainda agora fumei um… mas tá bem, aceito. Batia com o cigarrona unha do polegar, tivesse filtro ou não, alinhava o cigarro costas da mão voltada para cima, com os dedos unidos, dava uma palmada no antebraço para acontecer magia: o cigarro volteava no ar para poisar nos seus lábios.
Passada meia hora de cavaqueira dizia invariavelmente –Tá na hora. Estava na hora de rumarem ao portão de saída das miúdas. Lá iam para contornarem os enormes muros, como se diz hoje, interagindo com quem se cruzavam.
-Porra, olh’ás calças! Disse voltando-se como uma mola, punho em riste.
Lívido Kata balbuciou um – desculpa - para ouvir um – desculpa o caralho. A rasteira afinal não tivera piada.

Deolindo não era um brigão mas com as calças e o cabelo não brincava, que o diga Renato Caruso assim baptizado por Deolindo pelo furor que os seus trinados faziam nas matinés de Domingo. De certa forma eram as faces opostas e inversas da mesma moeda. Para resumir: Caruso era um híbrido na percentagem 10 de Elvis 88 de Carazonni e 2 de Renato. A animosidade entre eles era disfarçada pelos mimos trocados até que um dia, à saída de uma aula de Alemão, Renato se meteu numa brincadeira não tendo melhor ideia do que desfazer o penteado de Deolindo resultando num simples “espero por ti lá fora” com empate final a dois: um olho negro e um lábio rebentado a favor de Caruso para dois dentes a favor de Casanova que teve o direito de saída em ombros. Favoritismos da assistência nada mais.

Bom, mas eles iam a caminho do portão das miúdas, né? Pois’é! As miúdas cedo começaram a sair sendo, as primeiras, distinguidas com palavras que iam da bifana ao marisco. O mulato reservava para as mais bonitas: És feia que nem um bode, ou Credo! Tiveste um acidente? Para a irmã mais nova das Metralhas que eu, por piedade cristã, me recuso a descrever, dedicava, mão no peito e de olhos aos céus, a canção “O que é que você vai fazer Domingo à Tarde”. Isto era Deolindo à saída do Liceu até avistar Docelinda. Estão já a imaginar uma BOAZONA, né? Ná. Docelinda só era, simplesmente doce e linda! Boa colega, aplicada, não se eximia de se pôr de lado para o que o detrás copiasse os testes que, invariavelmente, acabava primeiro que todos.

-Já acabaste? Podes entregar.
-Não sôtor. Tenho que completar uma pergunta, obrigada, melava. E o teste passava ora para a esquerda ora para a direita da carteira. A malta à volta parecia que ganhava pescoços de avestruz. Não obstando à sua irrepreensível compostura, Deolinda, alinhava nas pelintrices da turma, está bem de ver que tais predicados agravados por uma elegância extrema e um rosto permanentemente radiante, causavam mais estragos que gripe suína. A epidemia tomava conta da turma alastrando até para fora do liceu. Os mais afoitos metiam à carga, ela, com a mestria de toureiro limitava-se a discretamente distribuir chicuelinas e passes de peito. Olé.
Quem não carregava adoptando antes a táctica do quadrado qual cavaleiro da ala dos namorados, era Deolindo.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
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Os poetas podem saber muito, mas quem de facto tinha razão era o beato promovido recentemente a santo. Naquele dia, estes olhinhos que a terra hão-de comer, viram o que a Alzeimer ainda não apagou: Docelinda passou por nós, Deolindo atirou a beata para o chão esborrachou-a com a biqueira do sapato e disse: Tchau malta. Vimo-lo ao passar por Docelinda abraçá-la pelo ombro, Docelinda abraçar-lhe a cintura e lá foram eles. Nós para ali ficámos… de boca aberta.

Troco um dia de poesia por uma vida de ilusão.

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Silêncio e tanta gente - Maria Guinot

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Silêncio e tanta gente

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra, é um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra ou é um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra, e este grito
São a história daquilo que eu sou

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não

E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não

E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

sábado, 6 de junho de 2009

Adivinha quem vem para ganhar


Parece castigo - João Bosco & Vinicius Acústico pelo Brasil
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Aos apelos à participação dos eleitores que resposta vai ser dada? Prevê-se que o tempo estará para o cinzento, podendo mesmo ocorrer alguma precipitação fraca.Não serão as praias a desviar-nos do nosso dever nem a molha será tanta que o impeça.

Qual será a desculpa para uma grande abstenção, se tal ocorrer? Desinteresse?

A quem compete manter os eleitores interessados, senão aos partidos? Nas campanhas são apresentados os programas recorrendo a formas sofisticadas de marketing, se o produto não entra há que tirar conclusões.

A participação na vida política tem sido incentivada pelos partidos ou estes ostracizaram-se?

Uma grande cota dos eleitores não acredita que a sua intervenção sirva para alguma coisa de útil pois vêem nos partidos, no mínimo, pouca seriedade. Os políticos são tidos como uns desavergonhados vendedores da banha da cobra que, conseguidos os seus objectivos, fazem o que bem entendem.
Quantas vezes não é dito, com alguma sobranceria, que no final dos mandatos é que a sua acção será julgada pelo povo?
Pois bem, se interpretarmos metade da abstenção como se de votos em branco se tratasse, quer-me cá parecer que amanhã ninguém vencerá.
Todos perderão

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Mão morta, mão morta...


Quando eu era pequenina - Tuna Convívio
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Mal informados, ou não, o que terá levado umas centenas de pessoas a confiarem as suas economias ao BPP terá sido colocá-las em lugar seguro com a possibilidade de as fazer render. Agora constatam que as suas expectativas foram goradas e, tendo recorrido à administração do BPP e do BP sem conseguirem obter a devolução do seu pecúlio, decidiram recorrer a Sua Exa. Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças que para meu, mas não deles, descanso lhes disse para irem bater a outra porta, tal como num jogo de roda infantil que já muito poucos lembrarão.

Mas terão aquelas pessoas ido pedir que Sua Exa. lhes desse dinheirinho? Acho que não.

Parece-me que Teixeira dos Santos meteu o membro inferior na poça, politicamente falando. Um politico ao dizer que, o que quer que seja, não é nada com ele, tenha paciência vá bater a outra porta, está mesmo a pedir reforma. Tal resposta pode até ser muito correcta mas quem pede aflito, nem que seja à N. Sra. dos Ditos, não é isso que espera ouvir; não é por acaso que os santinhos são mudos.
Provavelmente, Sua Exa. José Sócrates, Primeiro-ministro será o próximo a ter uma visita pois a sabedoria popular recomenda que se vá directamente a Deus contornando os santos. Fico a aguardar pela resposta que dará.


Tomo este episódio por uma grande lição. Quantos aforradores não terão assinado um extenso contrato redigido em letra miudinha? Quantos depositantes não terão a surpresa de saberem ser afinal investidores?


Em que medida é o governo responsável? Desde a publicidade enganosa aos procedimentos enviesados que as empresas utilizam, o estado tem o dever de intervir de forma a prevenir situações dolosas; não é admissível remeter a sua resolução para o calvário dos tribunais, que funcionam em regime de combustão lenta.

Há gente com a cabeça feita em água e atenção que mesmo em lume brando a água pode ferver.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sei lá


A VIDA TEM SEMPRE RAZAO - Vinicius De Moraes e Toquinho
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É um privilégio pertencer a uma tribo democrática, constitucional, multipartidária, com poderes repartidos e independentes, com órgãos sufragados directa ou indirectamente. Este privilégio permite-me, sem poses majestáticas, envergar o meu capote alentejano, empunhar mê cajado quais manto e ceptro reais, para enxergar o mundo, pigarrear e dizer:
-Apropinquem-se e oiçam o que tenho para vos dizer: Olhem bem para mim e invejem a liberdade.

Tadinhos dos que vergam pescoços à canga do monolitismo partidário, parideiro de cliques dominadoras da economia e das finanças onde a promiscuidade administrativa e judicial valsa em ballets roses, se empanturra com snakes, se inebria à custa de Veuve Clicquot, destilado por lumpanato translúcido a seus olhos e transparente para tais corações.

Tenham calma, que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Loureiros amnésicos e Oliveiras bem dispostas, espécies protegidas por bem elaboradas reservas ecológicas, convivem na paisagem protegida com quercus enfermos, mas tal não importa desde que só se enxergue a floresta passando despercebidas tais arvores.
Está tudo afinado: Com a Lei do financiamento dos partidos aprovada, sem perderem tempo com a supérflua eleição de um provedor de justiça, as máquinas dos partidos estão em marcha, rugem estrada fora convencendo quem podem, arregimentando animadores de arruadas, convencidos.
As curvas e contracurvas apertadas das sondagens são feitas a cada vez maior velocidade desrespeitando as trajectórias previamente estudadas, recorrendo à inspiração de momento, confiando no instinto de sobrevivência. No final vencerá um, não importa quem pois não há nenhum a quem se possa chamar melhor. Deste louco rally só vamos na primeira etapa. Aguardemos pelo final e oremos irmãos para que eles saibam o que fazem pois vem-me à memória, neste dia, uma frase batida: Não sabia.
No principio, ainda era o verbo, e já o nosso PM candidamente dizia que não sabia que o estado da nação era este. Esqueçam, disse, o programa eleitoral e… vai de mais impostos, mais desemprego. Não teria sido mais justo repetir o acto democrático e eleger quem soubesse da poda? Depois, o verbo foi-se estafando:
Sócrates garante que Governo não sabia da insolvência quando anunciou apoio de 100 milhões à Qimonda.
Sócrates não sabia de demissão de Dalila Rodrigues;
o primeiro-ministro diz que desconhecia que estava a violar a lei e nã se podia fumar nos aviões.
O PM nã sabe de nada; dos malandros que tinha na família… népia, da crise… idem, só há muito pouco tempo ouviu falar! Freeport? Qué isso?

Oh deuses, na vossa magnitude, perdoem os que tão pouco sabem porque...
cá o pobre do Erecteu parvus est.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pela Culatra, só a tiro.


A VIDA TEM SEMPRE RAZAO - Vinicius De Moraes e Toquinho
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Esta semana nã me tá a correr nada bem. Foi convidado por uns bacanos para ir até uma Ilha Formosa, mas levei tratamento de de degredado do Tarrafal, Nã me deixaram papar coisa de jeito nada, nadinha! De segunda a quarta estou páqui sem ter metido o dente em queque ou queca.
Aqui o vosso humilde Erecteu foi tratado a pouco mais do que sopa de tomate e carapaus, ora grelhados ora alimados, resultado… cheguei a casa atirei-me à balança para, triste sorte a minha, constatar ter perdido pelo menos 5 £, note-se que antes mesmo de cagar! Porra, mais de 2,5 Kg de formosura, é obra né?
Tenho de repensar o convite para sexta, dia arredio a pecados da carne, sob pena de acabar em pele ou osso, depois quem me indeminisa?

sábado, 30 de maio de 2009

TAN - TAN, TAN - TAN.TAN.TAN


Tarzan & Jane - Toy-Box
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Vocês conhecem o Tarzan? Que disparate! Quem não conhece o Tarzan?

but will Tarzan have Jane?

Não resisto a contar, ainda que não goste de me envolver em assuntos alheios, mas, mais tarde ou mais cedo toda a gente vem a saber. Os tambores da selva já começaram a rufar em surdina tan - tan, tan - tantantan.
Quem diria? A coisa corria tão bem! Ali na selva do Maiombe, a opinião é unânime, não há casal mais perfeito, os chimpanzés não contam dadas as suas normas particulares; é sabido o seu gosto para se catarem e ninguém se atreve a não lhes reconhecer o pioneirismo no tão em moda swing.
Ai que já me perco, desculpem, voltando ao Tarzan: o idílio daquela relação era uma mais valia para a selva. Desde que Jane aparecera, Tarzan andava muito mais bem disposto: deixou de chatear panteras e leões, tornou-se muito menos mesquinho deixando de ligar a ninharias. Até deixou de massacrar a Tek que passou a comer as bananas à sua vontade –de boca aberta– a sentar-se de pernas afastadas e coçar simultaneamente a barriga e o sovaco.
-Jane ama Tarzan?
-Claro que sim querido.
-Humm…!
-Hum? Hum o quê darling? Toda a gente vê isso, até o King Kong que sofre de cataratas no olho direito veria se fosse desta história!
-Mas Jane, tu nunca dizer I love you, disse amuado remexendo a terra com o pé , arremedando o Mogli. Falta de imaginação, dele, né?
-Oh filho deixa-te de bullsheets, tá? Disse a doce Jane um pouco agridocemente.

E aquilo lá passava que o Tarzan não era parvo e sabia até onde é que podia esticar a liana.
Por uns tempos voltava a paz e era uma alegria vê-los vogar de cipó em cipó. A propósito nunca percebi com’é cosgajos faziam aquilo! O Tarzan tinha as mãos nas lianas, né? não dava pá Jane andar de braços abertos imitando a Mansfield !!! Com’é qu’ela se sustentava ao colo do heroi? O realizador meteu água. Ai, desculpem.

Não era por a selva ser muito cerrada mas não era sol de muita dura.
-Jane love Tarzan?
-Ai a merda! disse Jane de mão na anca. Isso é uma pergunta ou uma afirmação? Se é uma pergunta, nem te respondo filho, e vê lá se aprendes, repete lá: Jane, do you love me?
-E ele com toda a pachorra: Jane, do you loves me?
Fuck! Já te disse que na terceira pessoa do singular é que metes os SS, não é loves é love. It’s so easy darling e num aparte arre!!! Por fim a a miúda que até nem era má rapariga, dando uma de culta despachou: Iavoul Ich liebe dish. Je t’aime. Ahmo-t’ós moulhinhos, queres mais?
-Não.

Quando me contaram esta cena, disse pós meus botões, não, para ser mais preciso, p’á tshirt: Isto assim nã dá. Mas a cousa lá se compunha e os cromos voltavam às passeatas de liana, banhavam-se nuzinhos ao luar, que o hipopótamo bem os via e ficava à rasca com uma ganda tusa sem ter uma mão de jeito para sacar uma punheta que bem lhe saberia.
Bom adiante, qu’isto aqui não é um blog de bolinha vermelha… está-se mesmo a ver que o bom do Tarzan se eforçava, esforçava mas… recaía.

-Jane, you don’t love Tarzan, disse quase escorreito e assertivamente; antes que ela abrisse os bêços carnudos, disparou: -Jane anda com Tarzan só porque Tarzan estar a jêto.
Jane bufou e irritada só lhe respondeu: Não é jêto é jeito e virando-lhe as costas foi-se embora rebolando as ancas.

Andaram nisto três anos queca aqui arrufo acolá.
Um dia, lá pelas onze como era hábito, voltava Tarzan da sua patrulha pela selva com umas flores silvestres presas entre os dentes, quando avistou a cabana lá no alto da mais alta arvore da selva. Fez-se-se anunciar:
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh.

Para surpresa sua não viu Jane de plantão na paliçada a acenar como era costume! Reparou ainda que o fumo branquinho não revolteava no ar, como era costume! Como era costume não se viam nem tangas nem soutiens pendurados na corda da roupa! Apreensivo pensou no pior -Querem lá ver que a puta da pantera a papou? - mas não. Tantor, embora estivesse sempre de trombas não mostrava sinais de nervosismo;
A sacana, se calhar, ainda está ferrada a dormir. Já vai ver, até se borra toda.
Inchou o peito entrou na cabana em passadas ao jeito de John Wain que pensava assentar-lhe como a melhor das tangas de pele de leopardo e… deu com o lar vazio, melhor, cheio de silencio. Em cima da mesa estava cuidadosamente enrolado algo parecido com papiro ; pegou nele mirou os estranhos gatafunhos, remirou, voltou a mirar e como não era lá muito dotado para as letras bradou:

-Terk, chega aqui já, rápido.
A pequena golirinha lá assomou e timidamente foi entrando no seu jeito balançado de menina de Ipanema. Por via das dúvidas, ofereceu-lhe as partes podengas.
-Vira para lá essa merda que mais parece a mitra de uma galinha com hemorróidas.
Terk obedientemente virou-se para ele, sentou-se, passou as mãos pelo rosto, arreganhou os dentes tentando um sorriso mas se isto fosse banda desenhada veriam um balão com tanto raio e corisco, caveiras e dinamite que fariam corar a Maria da Travessa do Chupalapele.

-Lê-me esta porra.
E Terk, obediente, leu:

Darling,
Vou para longe, vou para casa, vou para o raio que me parta. Olha, pensando melhor vou ter com o King Kong que não sendo desta história não está lá muito a jeito, não tem o teu corpinho, terá a pilinha pequena ou será capado até mas, se calhar, acredita mais em mim, ponto.
Tenho muita pena, como te disse, como me fartei de dizer,
assim não dá.
Hugs and kisses,
Jane

Aih, aih, aih, aih, aih, aih, aih, aih, aih, aih, aih.
Ecoou pela selva

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Oo-ee-oo-ee...
I am Jane, and I love to ride an elephant

My name is Tarzan, I am Jungle-man
The tree-top swinger from jungle-land
Come, baby come,
I will take you for a swing
Let's go, honey, I'm tinkeling

Tarzan is handsome, Tarzan is strong
He's really cute, and his hair is long
Tarzan is handsome, Tarzan is strong
So listen to the Jungle-song:

Oo-ee-oo-ee...
I am Tarzan from Jungle,
you can be my friend
Oo-ee-oo-ee...
I am Jane, and I love to ride an elephant

When you touch me, I feel funny
I feel it too, when you're touching me
Come to my tree-house, to my party
Yes, I'll go if you carry me

Tarzan is handsome, full of surprise
He's really cute, and his hair is nice
Tarzan is handsome, Tarzan is strong
So listen to the Jungle-song:

Oo-ee-oo-ee...
I am Tarzan from Jungle, you can be my friend
Oo-ee-oo-ee...
I am Jane, and I love to ride an elephant

Go Cheetah, get banana
Hey monkey, get funky
When I am dancing, I feel funky
Why do you keep ignoring me?
Tarzan is here, come, kiss me, baby
Oochie coochie kiss me tenderly

Tarzan is handsome, Tarzan is strong
He's really cute, and his hair is long
Tarzan is handsome, Tarzan is strong
So listen to the Jungle-song:

Oo-e-oo-ee...
I am Tarzan from Jungle,
you can be my friend
Oo-ee-oo-ee...
I am Jane, and I love
to ride an elephant

And so they got funky,
but will Tarzan have Jane?
Stay tuned to find out!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Previsão Meteorológica

Os xutos e pontapés estão por esta altura de malas aviadas para o Jamor. Sob o signo do Dragão, o Paços viverá um momento de glória independentemente do resultado final, e depois?
Depois, arrumada toda a parafernália de adereços, bandeiras, hinos e até palavras de ordem, especularemos se o Quique sai para Jesus nos vir salvar. Por uns tempos descansaremos as gargantas ficando de lado a questão de se foi mão ou não, esqueceremos o limite da grande área que é afinal a fronteira das grandes decisões, ficará em banho maria o desejo de nos irmos a eles para lhes incendiarmos os autocarros, guardaremos os berilaites e petardos para em breve ocasião voltar aos estádios, ainda que os administradores das sades, qual marquês, se lamentem de os índices de ocupação serem mui, mui, baixinhos. Está bem, e depois?

Bem, depois, animem-se que em pré época da silly season e até ao final dela, para além das preocupações com o bronze e das gorduras acumuladas, no inverno, à custa de coiratos, pasteis de bacalhau e litradas de cerveja, nas horas extra ginásio, haverá ocasião para ir ao baú sacar as camisolas abolorentadas e as bandeiras debotadas, libertar completamente o espírito para nos deixarmos apoderar do fervor que as nossas tribos exigem.
Portugal de lés a lés, do Minho à Camacha e do Algarve ao mais alto do Pico estará sob a influência de altíssima pressão em alerta rosa com a possibilidade de passar a alerta Laranja. Em três jornadas apenas decidir-se-á muita coisa. Para a agenda saltará quem é o culpado da crise – eu não, porra – far-se-ão promessas em registo de sereia, nos mercados e feiras cruzar-nos-emos de panfletos em riste, olhos apontados, desafiadores se não de ódio até, conquistando posições em concelhias ou abrindo horizontes para muitos filhos licenciados competindo com outros mestres da treta enquanto nos bastidores se repescam e adaptam discursos de passadas vitórias, ou se alinhavam as declarações e justificações que ressalvarão o melhor resultado relativo dos perdedores, se os houver, porque é sabido que em democracia não há disso. Ganha sempre a nação, né?
Na véspera de cada uma das três grandes finais, o Sr. Presidente-de-todos-nós reforçará o apelo, entretanto transversalmente repetido pelas diferentes tribos, de exercer o direito cívico de rumar ordeiramente às urnas, antes de ir pá praia, ou depois da missa; para trás ficou a discussão de se tal direito não deveria ser transformado em dever com as respectivas sanções.

Fico comovido com tal preocupação pelo reforço da nossa bem amada democracia que tanto nos custou a ganhar. Já nã chegavam as bancas do Bulhão e da Ribeira, estarem desertas para se assistir à desertificação das urnas! Já viram como vai a crise? Para deserto já basta a minha margem sul.
Aqui me confesso um devoto de votos. Não é para me gabar mas nunca dei uma nega, ainda que para tal cívico acto me tenha posto a pouco cívicas velocidades para apanhar a urna de boca aberta, obrigado. Mas… obrigado? Sanções, querem lá ver!?
Cá ao Erecteu, obrigado, nã há Sansão que (con)vença.
Nem Dalila!!!
Vai lá vai... até o baraka obama


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Ser solidario - Jose Mario Branco

domingo, 24 de maio de 2009

Que las ay ay

Uma longa vida de trabalho numa ainda não muita longa vida passara a voar em rumos incertos como perdiz espantada por botas cardadas - era o pensamento que mais uma vez assomava, enquanto limpava o tampo de mármore corroído, como se fosse possível alguma vez remover as manchas tintas de que nem a lixívia dava conta.
Pôs o pano ao ombro, afagou a pedra com ambas as mãos enquanto mirava Sofia, a filha, que arrastava as cadeiras de um lado para o outro passando a esfregona esfarrapada pelas velhas tijoleiras numa cadência lenta como tempo vazio.
Como cresceu a minha menina! Embevecido reparava em como se tornara numa mulher roliça. Encantava-o aquele rosto ainda de menina: sardas sobre as faces permanentemente coradas sublinhando o olhar meio malandro, o cabelo de fogo em caracóis rebeldes atestavam a linhagem galega que, dizia-se, teria um antepassado da mulher para ali trazido.

-Isto tem de dar uma volta, pai. A loja tem de render, disse a gaiata recebendo em troca a expressão agastada e mais uma vez se pôs a passar o pano pela pedra do balcão.
-Ouviste?

Sorriu e pensou: Sai mesmo à mãe, para logo se perder em pensamentos que o levaram a chapadas acima que, ainda o primeiro dente não lhe tinha caído, calcorreava com um rebanho que era tudo, tirando os da casa, pais e irmão, quem ele conhecia. Conhecia as ovelhas uma a uma ainda que poucas tivessem nome. Andara nessa vida de pastor até o cajado esfiapar o capote junto ao peito, as sortes lhe ditarem o caminho de África e, por acaso, tropeçar, em dia de feira com a Júlia galega. Desse dia ao salto da fronteira que o levou até terras de França não passaram mais de duas luas e outras, poucas mais depois, já a galega fora ter com ele a um banlieue de Paris onde foi sendo promovido nas artes de maçon até tomar a seu cargo algumas obras que promotores principalmente espanhóis, mas tambem alguns lusos, destinavam ao aluguer dos que iam chegando, a salto claro. Júlia, essa graduou-se em maitresse de ménage até Sofia nascer. Passados três anos cortaram-lhe um peito e onze depois regressou com ela para a enterrar na aldeia em que afinal nem nascera. Como passara o tempo!

-Não me ligas, acorda. O que vai ser da venda quando eu me for embora?

O coração parou-se-lhe por momentos. A sua menina passado aquele verão ir-se-ia embora, iria para a faculdade, como era possível? Os sentimentos emaranhavam-se; o orgulho lutava com outro que não era capaz de definir… a ideia de que ela, quando já doutora, não voltaria para aquela casa atormentava-o.

-Anda vai fazer uns petiscos, olha que hoje é sábado.
-Poucos os pedem… sabes bem.
-Vá lá, mexe-te, os lisboetas agora andam por aí, o Alqueva sempre há-de servir para alguma coisa, né? Olha, vou fazer um cartaz para prantar na porta, vais ver.

Em menos de um ai ou de um ui o cartaz já lá tava, regalou-se com a letra certa e redondinha que a sua menina tinha.

d'aqui


Dedicado a Maria de Lourdes Rodrigues, insigne reformadora que tão belas e difíceis provas nos tem dado, para alegria dos nosso queridos filhos.


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O Fortuna - Carl Orff
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sábado, 23 de maio de 2009

Lume Teatro é fogo.

Do aparente simples, Ricardo e Carlos formam uma multidão que começa por inundar o palco, invadir a plateia e tomar de assalto os corações de cada um dos espectadores. Descomplicando: são, não um, mas dois mimos, diria mais :dois ganda miminhos.
Cravo, Lírio e Rosa foi o que foi, viu quem viu e aqui fica este registo de um muito amador.
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