segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Como os chapéus, há muitos… III

Centristas

Não falo daqueles que peroram no parlamento ainda que sentados à direita. Ainda que se diga que é no meio que está a virtude, de virtudes está o inferno cheio e na terra ainda sobram muitas... pelo menos é o que ecoa.
Falo sim dos que do Vale do Coa ao Zambeze, dos que do Minho a Timor, sem temor, alardeiam a necessidade da manutenção dos ecossistemas e quando começa a vir à baila a porra dos sistemas…


Da formiguinha ao lince da Malcata, do imbondeiro ao aloé ou à doce ervinha, né?, da porra do jacaré à merda da hiena ou à merda de guano, tudo é para manter, pronto aceito.

E eu? Quem me mantém? Quando é que me metem no (eco)sistema? Tá bem, sei que sou um predador de viúvas, se elegantes, e seria de teenagers se isso nã desse cadeia. Papo tudo que seja de boa carne e só se safam os legumes, as frutas e os verdes porque me fazem cair o cabelo, principalmente os verdes. Ah por falar em verdes e queda de cabelo, vem-me à memória Fulguroso Esperto. E porquê? Esperto até é senhor de farta cabeleira! Mas as associações de ideias, como as cerejas, fizeram-me chegar a D. Ferreira, XICo. Esse mesmo o dos minutos verdes e dos vulgos carvalhos, lat. Quercus, pois foi, este mesmo, o mentor de Fulguroso.
Fulguroso ,é de bater Palmas, e não só. Acérrimo defensor dos sistemas, com ele não há carvalho que vá abaixo ou barragem que vá acima, não há aeroportos, pontes e TVG’s, sem estudos de impacto ambiental, , ou impacte, feito por empresa idónea e por eles recomendada; nada avança sem queixa para Bruxelas; co-incinerações ou aterros sanitários… isso é qu’era bom, a ver vamos quem fez o projecto.


Bom a conversa vai longa, chega de gastar latim com os ecocêntricos, pois.


Fulguroso Esperto, nascido a 25 de Abril de 1974, ao dar um passo mais longo do que a perna permitia, foi vítima de forte distensão na virilha.


Vai amanhã, definitivamente, a enterrar e não lamento nada.

Mas quem sou eu para…




Os Demitidos - Jorge Palma

Estás demitido, obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes.
Estás demitido, obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta

E assim vamos vivendo
na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte, afugentamos o desejo
temos preguiça de viver

Estás demitido, obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado.
Estás demitido, obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda

E assim vamos vivendo...

Estás demitido, obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal
tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste demitido!

sábado, 23 de agosto de 2008

Poema pequenino *

Contrariamente ao habitual deitou-se cedo e adormeceu logo. Dormiu de seguida para acordar com o sol a despontar, surpreendentemente bem disposto; pronto já está, pensou, sessenta já cá cantam e não custou nada. Desfez a barba de três dias que há anos o acompanhavam, saltou para a banheira e após um duche rápido que culminou a água fria, baldou-se da banheira e dirigiu-se à cozinha chapinhando a tijoleira, com cuidado, não fosse o demo tecê-las. Fez um café forte e dirigiu-se á varanda de trás, sentado na cadeira de lona, fez escorregar o rabo e apoiou os calcanhares no murete. Mirou os pelos do peito, cada vez mais brancos, meteu as mãos entre as pernas e afagou os tomates pensativo; foi afagando, afagando… Sobreveio uma erecção em crescendo, tomou o resto do café de uma assentada, fechou os olhos e continuou o, deliciado, doce afago acariciando o peito até que sentiu o corpo ser percorrido por um agradável tremor; ofegante deixou-se ficar por instantes de olhos fechados com um quase sorriso nos lábios.
Levantou-se rindo, com aquele riso que o persegue deste sempre.


-Parabéns, conta muitos, disse ainda gargalhando.



* a uma amiga que com os seus doces afagos me consegue fazer vir... em palavras; e com esta me devo ir, até para a semana. Bjs.


고마워요 (Thank You) (Duet 배슬기) - 안젤로

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Como os chapéus, há muitos… II

Grilos

Não falo daqueles que competem com as cigarras no alegrar dos verões, ainda que deles se diga que só moem a cabeça, não deixam dormir, ainda que em noite de aperto, com o calor a morder e o barulho do silêncio instalado na cabeça, se rebole na cama. Falo sim dos grilos da consciência, daqueles que nos sussurram sobre o ombro qual o caminho a trilhar. Falo por exemplo de Fulguroso Esperto, que me apontava o dedo ao peito advertindo-me para a possível negritude dos meus pulmões.


Ainda a (des)conhecida (para o Sô Zé) lei do tabaco estava a muitos anos de parir e já Fulguroso Esperto entrava em crises de asma, só por me ver levar a mão ao bolso da camisa; pusesse eu o cigarrito nos lábios e Fulguroso ficava roxinho; chegada a chama ao tabaco, Esperto, enrouquecia. Enrouquecido e meio desfalecido perorava:


-È uma questão de força de vontade e de respeito pelos outros; eu que fumei durante trinta anos…

Mas que fazer? Força eu tenho alguma, mas vontade... vontade não tenho nenhuma.


Fulguroso Esperto, nascido a 25 de Abril de 1974, foi vítima de aneurisma anal.
Vai amanhã a enterrar. Lamento que não tivesse deixado de fumar um ano mais cedo, talvez o hemorroidal tivesse resistido mais um pouco.


Mas quem sou eu para…



Saudade - Luis Represas

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ahhh, cuidado...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas porém colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ahhh, bebemos a saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da roca a S. Vicente em boa esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ahhh, saudades do futuro...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade.

Como os chapéus, há muitos… I

Policias
Não falo daqueles que faltam em esquadras e ruas, ainda que se diga sobrarem enquanto folgam as costas; porque em momento de aperto, quando o pau vem e a carteira se vai, de esticão, o carro muda de mãos fruto, ou furto, de um tal, afamado Car Jacking… aqui d’el rei.

Falo sim dos policias que residem dentro de nós, que nos fazem buzinar. Buzina-se por dá cá aquela manobra! Buzina-se em rotundas por hipotéticos atropelos de prioridade, buzina-se porque alguém vai a velocidade errada, depressa ou devagar demais. Buzina-se e incendeiam-se os faróis porque indevidamente se ultrapassou, ou porque a galinha, que nos precede, nunca mais ultrapassa o camião…

Os polícias que dentro de nós habitam, buzinam, buzinam e castigam:

Quando seguia na sua mão, junto a traço contínuo, Fulguroso Esperto, nascido a 25 de Abril de 1974, foi vítima de colisão frontal.
Vai amanhã a enterrar. Lamento o seu azar, saúdo a sua coragem, louvo o seu sacrifício: ainda que dispusesse de uns generosos seis metros à sua direita, não abdicou dos seus direitos.

Mas quem sou eu para…


Sê um GNR - G.N.R.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Tão amigos que nós éramos!

O estado português é sustentado por órgãos cujos poderes se pretendem independentes. A sua organização administrativa contempla, para alem do governo central, a administração autárquica e a esta acresce a administração regional, de momento e até que outras sejam criadas, da Madeira e dos Açores.
Organiza-se, segundo princípios democráticos que visam a independência dos seus órgãos e existe contudo a possibilidade da fiscalização de uns órgãos pelos outros. O Presidente da República (PR) é o mais alto magistrado da nação, emanando o seu poder de sufrágio universal e directo, está obrigado a respeitar e fazer respeitar o texto constitucional.
O poder legislativo e executivo é assumido após renhidas lutas politicas; umas públicas, ruidosas e agitadas, e outras intestinas, surdas e calculistas.

Temos um PR, de todos os portugueses, de coração marcado pelas setas populares ou social-democratas e um governo central, sustentado por uma maioria parlamentar/legislativa, com a marca d’água de uma rosa “apunhalada” ou de um punho “rosado”.

Do PR, do Governo e da oposição:
Tivemos até agora uma louvável cooperação institucional que superou as expectativas e deitou por terra os arautos da desgraça, os nostradamus apocalípticos que peroraram sobre os perigos de um presidente de direita. A desorganização da oposição PSD/PPD e a execução de reformas por parte do PS que o fariam dizer delas, se não estivesse no poder, o que o profeta não disse do toucinho, poderão ser a justificação de tanta harmonia. Resta a oposição de esquerda que deita o olho guloso ao eleitorado descontente, sujeita a regimes de baixo teor calórico, e adivinhando algum aumento de peso nos próximos banquetes eleitorais –não se esqueçam eles de que a amnésia do povo é longa.

Se isto da redução dos poderes presidenciais, no que diz respeito ao Estatuto Político-Administrativo dos Açores, desse para o torto, que não dará, se a maioria parlamentar somente corrigir os atropelos detectados pelo Tribunal Constitucional, o que é possível, este sistema semi-presidencialista permite que o PR, ouvidos os que tiver ouvir, convoque eleições antecipadas, o que não me cheira.

Então…! Então, parafraseando: nada se perde mas, mas pelo menos, algo se transforma. Transforma-se e não é a partir do nada. Transforma-se a partir do momento que o Leite, derramado no PPD/PSD, de Manuela Ferreira, lhe dá alguma esperança de vida.

“Governais… é bem feito.” Disse Almeida Santos em memorável discurso, quando pela primeira vez, in illo tempore, o PS cedeu o poder a favor do PPD/PSD, à laia de, digo eu, “se soubésseis, quão difícil é governar…”. Pois bem, vaticino que, contra o que é de momento projectado, as favas não estão contadas. A harmonia vai continuar entre Belém e S. Bento; vai continuar mas tensa. A dupla Cavaco/Leite, o grão-mestre e a mestrina, preparam pela certa um conserto, a orquestra de câmara já existe e para que tudo corra bem há que silenciar os desafinados.

A tempestuosa comunicação do PR, bem vistas as coisas, não passa de tempestade em copo de água. Queixa-se o PR de não ser admissível que lhe limitem os poderes, o que se me afigura de falacioso, na medida em que o seu poder de dissolução do Parlamento regional açoriano se mantém - ainda que possa que ter que ouvir, em coro, o Conselho de Estado e a solo o presidente do Governo Regional. Ganda coisa!

Olhem, para mim chateia-me muito mais conviver com a ideia de ser governado por um senhor que promete umas coisas bué de interessantes e que depois confessa não estar à altura de governar, porque afinal desconhecia o estado da nação -estou até disposto em alinhar no pagamento dos custos da repetição de eleições quando se verificarem aldrabices eleitorais, sem prejuízo de os aldrabões serem irradiados da participação na vida politica. Em consequência da aludida ignorância temos que mamar com exactamente o contrário do que nos fora prometido, é caso para dizer que foi uma tanga.

Da tanga, passámos a nus, e ele passa sem que lhe atirem à cara que ele, qual rei, também nu vai.
É obra né?
A Constituição é que não pode ser atropelada, de resto vale tudo inclusive mudá-la, mas para isso é preciso uma maioria qualificada e aí não é a porca que torce o rabo mas sim o rabo que torce a porca.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Assim era pois assim nascera: virado do avesso.
Chegada a hora de pular para a vida não se fez de rogado, recusando o vulgaríssimo mas apreciado atirar-se de cabeça, optou por oferecer aos presentes os pezinhos.
A primeira patada fora dele, é verdade, mas muitas lhe seriam devidas, como prenuncia o popular aviso de que o primeiro milho é para os pardais.
Para celebrar a chegada começou logo por levar duas nalgadas a pretexto de que era imperioso pôr os pulmões a bulir, ao que respondeu com uma respeitável choradeira, choradeira essa que no decorrer da sua feliz infância lhe valeriam outras tantas boas surras até aprender o que eram as birras. Não terão sido propriamente birras as xinfrineiras que fazia, mas até ser sentenciado à sua doce mãe que o leite que esta lhe oferecia carecia de certificação de qualidade, pode-se dizer que o petiz tinha as orelhas a arder pelas quase pragas que lhe eram unanimemente lançadas pelo pessoal lá da casa e que mais tarde veio a tomar consciência de ser a família. Enfim, passado ao regime do leite em pó, as coisa lá se foram compondo.
Há quem diga que quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita mas uma apurada educação baseada no são principio de que é de pequenino que se torce o pepino salvaram-no, à força de muito bom conselho e de muiiiiitas e melhores palmadas de maus caminhos, como por exemplo o de alimentar a horda dos sinistros podendo hoje orgulhar-se de ser um excelente exemplar de dextro desajeitado.
Têm razão. E esta porra interessa a quem?
À laia de consolação deixo-vos este video que não é propriamente ortodoxo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O pão, o pau e a nau.

O conforto deste divã permite abrir o que trazemos trancado na alma: pieguices, fantasmas ou efabulações.
Construímos histórias bonitas, ancoramos a fé onde podemos ou dá jeito, como é o caso da ideia que tenho da grande reserva de solidariedade a que se permitem os que muito pouco têm. Refiro-me concretamente ao meu conhecimento, relativamente próximo, de comunidades africanas que demandaram Portugal em busca de tranquilidade e de (alguma) dignidade social. LOTAÇÃO ESGOTADA era conceito desconhecido para tais comunidades, ou famílias se preferirem, havendo sempre lugar para mais um que chegasse, entendendo-se por lugar: cobertor, pão ou um módulo de transporte.
Estas comunidades viviam em crise e geriam-na, aos olhos da sociedade onde pretendiam inserir-se, de forma incompreensível.
O que recentemente se passa na República Sul-africana (RSA) leva-me a pensar que se deve ter cuidado ao olhar a floresta que esconde a arvore. Tomar a parte pelo todo, generalizar, é um passo para conclusões erradas, o inverso é igualmente verdadeiro.
O sentimento de pertença que tão fortes implicações cria, cria por outro lado sentimentos de rejeição. Sabido que a grande nau corresponde proporcional tormenta, desenrolam-se, num ambiente de incontroláveis emoções, cenas degradantes que, suspeito e quero crer, de espontâneas só têm a aparência.
Escasseia a razão quando o pão a partilhar escasseia, e porque uma reserva de mão de obra (um pouco) mais barata, ao alcance de detentores de bens e meios de produção, deste modo rouba tão pouco pão… assistimos a um triste milagre da transformação do pão em perseguições que culminam em linchamentos. Quando, como e onde vai parar este milagre que horroriza meio mundo?

Por outro lado: quem será o outro meio mundo que a isto assiste?

.
A Nau Catrineta (Versão de Lisboa) - Fausto
.

Lá vem a Nau Catrineta,
que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar."

Passava mais de ano e dia,
que iam na volta do mar.
Já não tinham que comer,
nem tão pouco que manjar.

Já mataram o seu galo,
que tinham para cantar.
Já mataram o seu cão,
que tinham para ladrar."

"Já não tinham que comer,
nem tão pouco que manjar.
Deitaram sola de molho,
para o outro dia jantar.

Mas a sola era tão rija,
que a não puderam tragar."
"Deitaram sortes ao fundo,
qual se havia de matar.

Logo a sorte foi cair
no capitão general"

- "Sobe, sobe, marujinho,
àquele mastro real,
vê se vês terras de Espanha,
ou praias de Portugal."

- "Não vejo terras de Espanha,
nem praias de Portugal.
Vejo sete espadas nuas,
que estão para te matar."

- "Acima, acima, gajeiro,
acima ao tope real!
Olha se vês minhas terras,
ou reinos de Portugal."

- "Alvíssaras, senhor alvissaras,
meu capitão general!
Que eu já vejo tuas terras,
e reinos de Portugal.
Se não nos faltar o vento,
a terra iremos jantar.

Lá vejo muitas ribeiras,
lavadeiras a lavar;
vejo muito forno aceso,
padeiras a padejar,
e vejo muitos açougues,
carniceiros a matar.

Também vejo três meninas,
debaixo de um laranjal.
Uma sentada a coser,
outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas,
está no meio a chorar."

- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar"

- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.
Que eu tenho mulher em França,
filhinhos de sustentar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar."

- "A Nau Catrineta, amigo,
eu não te posso dar;
assim que chegar a terra,
logo ela vai a queimar.
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."

- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar"

- "Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar.
Quero a Nau Catrineta,
para nela navegar.
Que assim como escapou desta,
doutra ainda há-de escapar"

Lá vai a Nau Catrineta,
leva muito que contar.
Estava a noite a cair,
e ela em terra a varar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

De Vossa Excelência, atenciosamente

Não fica lá muito bem gabar-me mas já que ninguém o faz, desculpem lá, faço-o eu.
Confesso que tenho dificuldade em fazer tal coisa, não por qualquer questão de modéstia ou de limitações éticas, -qual quê!- mas pela simples razão de que o meu cesto de tão roto, tão rotinho, não há quem o queira na vindima, só isso.
Ficamos onde, então? Porque sou perseverante, embora me vejam mais teimoso, na gabarolice, tá claro. E com isto voltamos ao mesmo: de que me gabo eu? Bem, aqui é que o rabo torce a porca e para gabar, gabar… à falta de melhor, desculpem lá, não há nada como começar por me pôr a nu antes que outros o façam e que se perceba que pelo peixe morre a boca, sim que burro de todo não sou, e de parvo não vos quero fazer evitando assim o efeito de ricochete.
Abreviando: bom, bom mesmo, como eu não há muitos. Como eu, a fazer merda, não há quem, pena é que me falte a flexibilidade para sair em fic-flac à retaguarda como bons artistas da nossa praça, que por sinal tanto eu invejo. Deste modo, na falta de unhas e de guitarra, não há nada como agachar-me até ao limite da visão da cuequita, consciente de ter calos e da sua inconveniência para apertos.

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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Remoendo


A moinha pingando, à porta do trabalho, e eu remoendo pensamentos preguiçosos que o cigarrito solitário a tal obriga, agora que o socialmente correcto assim impõe e o legal a tanto obriga.
O que parecia tão penoso, a menos que seja desculpa de mau fumador, tornou-se afinal num ritual assaz interessante, somente comparável à sociabilização dos que passeiam viralatas ao cair da tarde.
É verdade! Não fora o condicionalismo do nicotoide consumo e, pelo menos da minha parte, jamais teria encetado algumas cavaqueiras que ultrapassaram, em muito, o blá-blá de circunstância.
Remoía eu nisto, quando os malinos pensamentos se desviaram para o recente caso do Sr. Zé, apanhado em executivas passas num fretado aparelho da nossa frota nacional. E remoendo, senti calores apossando-se de mim segregados por uma glândula, a descobrir, que perante a hipocrisia começa logo a bulir…

- Atão não é hipocrisia!!!!
Arrepelam-se me as entranhas quando dou de caras com o oportunismo serôdio dos que não se coíbem de malhar no ceguinho.
- Aqui d’el rei que o homem foi caaçdo a fumar no avião.
E depois, qual é o problema? O homem até ía em trabalho! E com otrabalho não se brinca, né?
Pois é, com o trabalho, e o do sô Zé também, não se brinca.

… e fui remoendo no ao que chega a hipocrisia dos que, por dá cá aquela palha, zurzem por zurzir, zurzindo e amealhando pontos: Uma vez é porque é bicho que nem parece humano, outras porque em flagrante deslize, comum de humano, aqui vai d’isto que o rei vai nu. Sabem que mais, filisteus protestantes? O nosso Zé tem os mesmíssimos direitos que qualquer um de nós, tá?
Se o Zé-povinho pode fumar á porta do trabalho, se o sô Zé ia a trabalhar, qual é o drama?
Já percebi! Queriam que o méne fosse fumar pó pé da porta do avião, a 30.000 pés, é?


Ide badamerda, mas’é, prontos.


sexta-feira, 25 de abril de 2008

E o resto? Não dá zero!

Dos inquiridos, metade entre os 15 e os 18 e 1/3 dos 19 aos não sei quantos (34? pois 34 tem abril) não sabem: quantos paises constituem a União Europeia; quem foi o primeiro Presidente da Republica, eleito após o 25 de Abril; se o PS tem a maioria absoluta!!!
Ora tomem lá.

E já agora, obrigado Aníbal que em boa hora mandaste fazer esse inquérito, mas se não te importas venham de lá essas conclusões e respectivas medidas, antes que alguém clame que está comprovada a teoria da "geração rasca".
Quem diria! Quem diria que não sabem, pelo menos, que são mais de doze e menos de trinta? Quem diria que não têm a vaga ideia da figura prussiana, apinochetada, de um general que afinal não era bem o que parecia, que não gostava de coboiadas aventureiras e que de chaimite em riste pôs fim à sétima cavalaria? Quem diria que não sentem que um mar de rosas de promessas eleitorais tomou de assalto o parlamento, qual corsarios das caraíbas, e se tornou num mar de rosas de reformas?
Pfff, que juventude!
Atrevidamente, sugiro-te Aníbal que lhes dês un estalo sem luva. Manda inquerir, se te aprouver, se os teus cidadãos seniores sabem sobre o Tratado de Lisboa:
  • O que é?
  • Como foi adoptado pelo Estado Português (e como tinha sido prometido fazê-lo)?
  • Quem contribuiu para a forma como foi aprovado, e porquê?
É sabido que esta geração não é fruto de geração espontânea, né?

*
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E já agora, porque os corsarios vieram à baila, permitam-me a "piratisse" e entendam-se com o Camané, que não tem nada a ver com ete assunto.







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Ciúme da saudade (Manuela de Freitas)

se não matas a saudade
quando morres de vontade
de pôr à saudade fim
é talvez porque preferes
ter da saudade o que queres
e não me pedes a mim
é talvez porque preferes

ter da saudade o que queres

mas não me pedes a mim
a saudade em que me deixas
é penhor das tuas queixas
por não dizeres a verdade
bastava que me pedisses
de cada vez que me visses
o que pedes à saudade
o que dás se me não vês
não consigo que me dês
por timidez ou vaidade
e a saudade que vais tendo
com ela vives morrendo
para me matares de saudade
talvez seja o que tu queres
e é por isso que preferes
a saudade em vez de mim
morrendo os dois de saudade
temos toda a eternidade
para pôr à saudade fim

segunda-feira, 21 de abril de 2008

http://al-qasr-abu-danis.blogspot.com/

Não é debalde que de balde a balde se vai desenterrando o passado em Qasr Abu Danis, vulgo Alcácer dos Sal. Fiat lux e eles não se fazem rogados; Marisol, Rafael Carvalho, montados em pachorra que faz inveja ao mais teimoso dos alentejanos, com a sua genética simplicidade e saber feito, acorrem onde é preciso pois este vale de ostra e ameijoa garante que cada cavadela é uma minhoca.
Celebra-se a inauguração da Cripta Arqueológica do Castelo de Alcácer. Quem por estes assuntos se interessar vá lá http://al-qasr-abu-danis.blogspot.com/
Está lá do bom, se não concordarem... pago eu a despesa.
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E já agora juntando o útil ao agradável... puxem dos dobrões à bolsa e corram a comprar. Não precisam de correr muito pois saiu hoje e amanhã ainda deve haver uns poucos de "Sempre de mim"
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Sei de um rio


sei de um rio
em que as únicas estrelas
nele sempre debruçadas
são as luzes da cidade

Sei de um rio
sei de um rio
rio onde a própria mentira
tem o sabor da verdade
sei de um rio

Meu amor dá-me os teus lábios
dá-me os lábios desse rio
que nasceu na minha sede
mas o sonho continua

E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio
E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio

Sei de um rio
até quando

Camané - Sempre de mim

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Sou um igénuo é o qu'é.

Parece-me que estamos de acordo, quase, aviados; estamos em via de pôr a cruzinha no desacordo ortográphico e no processo complicado de avaliação de professores. Aproveito o que nos resta desta reta final e para afiambrar, pé cá, pé lá, o presente e o futuro trocando os “pp” pelas acentuações.
E, de acordo falando, s’isso é bom não olvidemos o ótimo, seu inimigo.

Acordo, ortográfico porquê? José Mauro de Vasconcelos, Vinicios ou Amado não me atrapalharam, quando menino e moço; já as legendas do “MGM” me dariam água pela barba se imberbe não fosse, não por ortográficas, mas sim por sintácticas, ou sintaticas, razões, sei lá eu bem com'é.
Entenicam os nossos irmãos d’além mar com “cc e pp” numa ação concertada com a lógica da incomodativa falta de correspondência de fonética com grafia, razão “primêra” anunciada por ilustre operária de letras poéticas, em animado “Pró & Contras”, como se assim a bota batesse com a perdigota!
Não empaniqêmos; não consta que pela antanha revisão ortogrpahica a malta de Orpheu tivesse padecido de dores de cabeça que os fizesse recorrer aos serviços pharmaceuticos ou de qualquer botica do Chiado. Venha lá esse acordo, valeu cara?

E por falar em caras… a cara ministra que nos educa de lés a lés, concede, concerteza a bem da nação, a simplificação do sistema de avaliação, calminha, não se precepitem, concede a simplificação somente por este ano lectivo, pasme-se!
Sim, estou pasmado e desiludido. Sinto-me enganado por todos os lados: Afinal não é verdade que a Sra. D. Ministra é inflexível, ainda que pelas ruas 1000.000 o voltem a clamar; afinal teremos que esperar que,uma parte, da reforma apregoada ministerialmente -e pelas suas indefectiveis correias de transmissão- como o suprassumo da barbatana, afinal será moda Outono/Inverno em vez de Primavera/Verão; verão afinal que o inadiável, o irrecusável, o..., o…, o inevitável aconteceu. Prontos final

Sou um ingénuo. Sou um ingénuo. Sou um ingénuo, repetirei, por tempo ideterminado, ao deitar e ao levantar .
É o qu’lho digo ou o qu’lhão, possivelmente, dizer.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

SO LONG

Tido como racionalista viveu a arquitectura apaixonadamente.

Armou as casas "em pradarias" arranhou os céus de Chicago, debruçou-se em cascatas, sonhou com broadacre, por fim enterrou-se no deserto.
Ontem carpiu-se a sua morte. Faz tempo demais que partiu. Partiu mas deixou-nos muito e bom regalo.
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So long, Frank Lloyd Wright.
I can't believe your song is gone so soon.
I barely learned the tune
So soon
So soon.

I'll remember Frank Lloyd Wright.
All of the nights we'd harmonize till dawn.
I never laughed so long
So long
So long.

CHORUS

Architects may come and
Architects may go and
Never change your point of view.
When I run dry
I stop awhile and think of you

So long, Frank Lloyd Wright
All of the nights we'd harmonize till dawn.
I never laughed so long
So long
So long.




sábado, 5 de abril de 2008

O umbiquito da Sra. D. Leonor


Ontem foi um acontecimento: O auditório engalanou-se para receber a ante estreia de “Fernando Mil Pessoas Uma Musa e …”
Pelos vistos a terra mexe, agora Leonor, de Alcácer seguirá para Inglaterra. Saber que uma filha da terra, como para aqui se diz amiúde, se tornou ilustre pelo seu trabalho e tem asas para voar longe, sabe-me bem.
Aproveito, já agora, para lhe fazer um pedidinho, que lá longe não cometa a "gaffe" de dizer que nada mais há para além do seu projecto. Ficar-lhe-á bem referir que muitas outras instituições, como por exemplo as denominadas Calceteira, Pazoa e Rancho Folclórico de Alcácer dão, exactamente como ela, um mui digno contributo cultural.
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Até lhe perdoo que ignore o Teatro do Rio!
Compreendo o que a motivará a fazê-lo...

terça-feira, 1 de abril de 2008

Gato por lebre - TEATRO DO RIO

Sei que não viram porque estive de plantão e não me cheirou a blogueiros.
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Os rapazes até nem se saem mal. E agora? É desfazer a tenda e começar outra (o "Holocausto" vem a caminho). Pena é que não haja por aí quem os desafie, talvez uma Câmara Municipal ou Junta de Freguesia se lembre deles. Pelo que sei por umas bifanas (e pouco mais) estes saltimbancos facilmente se fazem à estrada.

Na verdade, porem, vos digo que é tragar gato por lebre, pois os meninos apresentam-se como amadores mas quando arregaçam as mangas... cuidem-se até ós "prós", não lhe peçam meças.

É verdade que ninguém me encomendou o sermão mas... aqui fica um cheirinho de ajudante de aprendiz de fotógrafo:


nos bastidores e... começando

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...e continuando

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ainda continuando...
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continuando, ainda
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por fim... acabando.
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domingo, 30 de março de 2008

Menos uma hora

O sono, bem escaço, ainda que proteste, que se lixe. Até que as folhas caiam poderemos gozar o sol por mais uma hora!

Tou tão contente que vou já pular pá rua de calção e chinelito, ah! ainda que o dia nã ajude não podiam faltar...





ah! pombinhas, nã se esqueçam...



tokákurtir

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Estado do paradoxo.

No final somos nós que pagamos… E com este argumento surgem dúvidas quanto à responsabilização dos agentes do estado, nomeadamente dos tribunais e respectivos juízes.
Numa primeira mirada dá para estranhar que o mais alto magistrado da nação torça o nariz à aplicação de uma lei que parece dar satisfação aos protestos continuados de todas as castas de povinho, mas Cavaco não é coxo de todo e se pensarmos numa justiça célere não será difícil imaginar que estaria armada a grande confusão por esses tribunais fora, a não ser que à semelhança da saúde se impusessem taxas moderadoras.

Pela mesma razão, serviços de saúde eficientes atrairiam muitos mais utentes. Mais do que as taxas moderadoras é a própria qualidade dos serviços dissuasora, por si mesma, da procura de panaceias para má disposições,quase sempre passageiras. Por outro lado os (im)pacientes não têm em consideração que a reacção do organismo basta para a cura de muito mal. É verdade que saúde não é matemática e se isto não dá conta certa como na divisão… consideremos as mortes, que vão amiúde acontecendo, como mero resto.

O mesmo se passa na educação. Um país sem oferta de empregos vê crescer o número de licenciados concorrendo a postos de trabalho destinados a indiferenciados, como por exemplo, desqualificadas operadoras de caixas registadoras em fultaime, ou em partaime técnicos de limpeza ou de segurança.

Um estado eficiente serve para quê? Para convivermos com a eficiência teríamos que ter políticos e empresários, agentes do estado e operários, sindicatos e associações empresariais, e o demais, igualmente eficientes, né?
P'a pior já basta assim, porque doutro modo não resistiríamos a fracassos; deste modo, a culpa se não é deles é do sistema.

Minha é que não é.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Sumol is beautiful

Adorei quando me passaram a tratar por Mini. O tempo da rata do Mickey já lá vai, tempo dos Mini Cooper S, do aparecimento, mais tarde, da mini-Sagres, mas mais relevante era, obrigado Mary Quant, a mini-saia.

Tivesse eu os joelhos de outrora e ainda as usava, podem crer, mas a vida madrasta atropela-nos com desilusões e maior que a perversidade das amigas não há. Eu conto.
Foi no encontro das antigas alunas do Liceu. Estávamos todas tão alegres, a minha felicidade transbordava porque, tirando uma ou outra afectada nos modos e pelo Alzeimer, todos se lembravam de mim, só isso.

-Olha a Mini! e lá levava eu com um par de beijocas.
O jantar decorreu bem, a surpresa do streap, não sendo nada de original, contribuiu até para aumentar a desinibição, tudo teria corrido pelo melhor se não tivesse indagado porque é que me tinham baptizado de Mini.

A maioria não sabia mas a Mizé Almeida esclareceu:

- Por três razões. Pelas saias (enrubesci de prazer), pelas vistas curtas (compus os óculos) e pelas ideias (engasguei-me).


Não fora a risota geral e até tinha ficado mais um pouco.


Mas há quem goste de apagar o fogo com gasolina ainda que a mais de 100 US$ o barril. Confesso que já não me lembro do que foi mas. ainda mal se dissipara o fumo branco que teimara em parecer negro, e a polémica estalou com umas quaisquer reflexões ou santas declarações, que a minha minisse não permite recordar *. Agora…



Mas que bela mensagem pascal, destaco:

Bento XVI apelou ontem à paz no Tibete, no Médio Oriente e em África, no encerramento das celebrações pascais que decorreram sob o signo da liberdade religiosa.(…)
(…)"Não podemos deixar de pensar nalgumas regiões africanas, tais como o Darfur ou a Somália, no atormentado Médio Oriente e no Tibete, regiões que eu encorajo a encontrar soluções que salvaguardem a paz."(…)
(…)No sábado, na vigília pascal, Bento XVI também cumpriu a tradição e baptizou sete adultos, um dos quais um antigo muçulmano. Magdi Allam, natural do Cairo, é editorialista do Corriere della Sera e um dos maiores críticos do islão. (…)
(…)Lembrando que no passado foi um "muçulmano moderado", o editorialista, de 56 anos, afirma que "se libertou do obscurantismo de uma ideologia que legitima a mentira e a dissimulação, a morte violenta (...) e a submissão à tirania".(…)
Bom a ladainha vai longa, o tempo melhora, melhor será que vá dar banhos de mar às varizes, recebam um beijo da vossa,

Mini Pascoal


* "Mostre-me o que Maomé trouxe que era novo, e lá você encontrará apenas coisas más e desumanas, como o seu comando de espalhar pela espada a fé que ele pregava". ( oportuníssima citação de sua -dele- santidade).

domingo, 23 de março de 2008

AGNUS DEI, Delacroix

Aleluia – até a mim me soa a pastor Tadeu – aleluia que hoje há carne sem ter que se pagar bula. Contentes? Fossem vocês o cordeiro e sentir-se-iam mexilhão entalado entre o mar e a rocha. Mas isso é lá problema dele que promovido a agnus dei tem o privilégio de simbolizar Aquele que, por amor, se fez sacrificar libertando-nos do pecado original!

E porquê o Borrego? Sei lá! Desde os tempos em que Moisés teve que dar cabo das 12 tábuas, que afinal eram de pedra, por causa de um bezerro doirado, ao bovino restou a personificação de Lucas e viv'ó velho.

O que resta? Cavalo, era uma nobre raridade e camelo demasiado rijo; bicho de bico raridade de menos e ainda menor nobreza; porco... talvez fosse antecipar sarrabulha à Herodes.

Olhem calhou ao o borrego fazer de mexilhão e prontos.

Bon a petit, ou seja: bom é o pequenino (três meses)


Ensopado de Borrego (d’aqui)

Ingredientes:
Para 8 pessoas

2 kg de carne de borrego (costeletas e sela) ;
500 g de cebolas ;
2 colheres de sopa de farinha ;
200 g de banha ;
5 dentes de alho ;
1 folha de louro ;
1 colher de sopa de pimenta em grão ;
1 colher de sobremesa de colorau doce ;
1 ponta de malagueta ;
1 kg de pão caseiro ou de segunda ;
sal
Confecção:

Corta-se a carne em bocados, que se passam pela farinha. Retiram-se 3 colheres de sopa de banha e aquece-se a restante num tacho de barro. Introduz-se a carne neste tacho e deixa-se alourar.
À parte, noutro tacho de barro, faz-se um refogado com a restante banha, as cebolas cortadas ás rodelas, os dentes de alho cortados, o louro e a pimenta em grão.

Na altura de servir, tem-se o pão cortado em fatias numa terrina, sobre a qual se deita o caldo do ensopado depois dos temperos rectificados.
A carne serve-se à parte numa travessa mas ao mesmo tempo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A nação do estado

As bifas tardam em chegar tal como as andorinhas, mas agora é que vai ser. As Caramelitas, nostras hermanas, já começaram a arribar!
É uma alegria vê-las a chilrear, Rossio acima mirando os nossos atoalhados, impropriamente chamados de turcos!
Não fora o carpir arrependido de Pedro e outro galo cantaria mais de três vezes, mas a moinha caldosa resolveu instalar-se, penitente, para melhor se celebrar a Paixão, o que não permitirá certamente contemplar as hermosas espaldas das niñas, Chicas ou Consuelos.
Numa tentativa de adaptação metereológica fiz-lhes a espera lá para os lados d'El Corte Ingles, isso, aí mesmo ao lado do laureado Parque D. Edardo VII, que magnífica vista nos proporciona até bandas de além Tejo.
Para que não aflorem ideias iberistas, o digno alcaide D. António Costa, caudilho da nossa mui nobre urbe, solenemente faz assinalar a nossa soberania com gigantesca bandeira nacional que, em ocasiões solenes, tanto arrepio pela espinha nos causa, como por exemplo as cantatas do hino em jogos da nossa "selecção nacional de raiguebêtas".
Pois então!
É este o estado da Nação
Boa Páscoa a todos

segunda-feira, 17 de março de 2008

Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes

Na primeira pessoa:

Nascemos em 1996. Estreámos a nossa primeira peça em Maio de 1997. Produzimos, desde então, peças de autores como Eugène Ionesco, Alice Vieira, Bertold Brecht, Gil Vicente, Augusto Boal, Plauto, António Gedeão, e agora Luís de Sttau Monteiro. Continuamos a contar contigo, caro espectador. Sem ti o Teatro nunca acontecerá. Na prática, acabas por ser o único verdadeiro VIP neste planeta (só que este estatuto não te dá nem soldos e cruzados. És tuNascemos em 1996. Estreámos a nossa primeira peça em Maio de 1997. Produzimos, desde então, peças de autores como Eugène Ionesco, Alice Vieira, Bertold Brecht, Gil Vicente, Augusto Boal, Plauto, António Gedeão, e agora Luís de Sttau Monteiro. Continuamos a contar contigo, caro espectador. Sem o pagante… Mas isso é outra questão) Um abraço do tamanho do Universo Teatro do Rio.

Na minha pessoa:

São quase bons, se lhes pedissem meças não davam Barraca, é um Teatro à maneira desComunal, sem pretenciosismos Cornucópianos. Soubessem eles divulgar-se (melhor) e poupavam esta trabalhêra mas a minha opinião vale o que vale. Atrevam-se a vir vê-los, que:

O Luís Paulo é um caso sério, A Ana Penas uma pena não lhe darem asas para voos mais largos, o José Geraldo a prometer (estreia-se aos 11 anos, a Nádia Penas filha de peixes nad(i)a em qualquer estilo, o João Campaniço um monstro que vai de quasi-modo ao que lhe pedirem, a Ju Soares uma surpreendente feiticeira, a Ana Rita um presente e Adelino Lopes a alma pater.

Ah!

Em Alcácer do Sal, dia 27, Quinta-feira. (Auditório Municipal)

Em Stº André, dia 29, Sábado.


PROGRAMA
da
CRÓNICA ATRIBULADA DO ESPERANÇOSO FAGUNDES


Escrita em 1979, é uma sátira de algumas fases cruciais da história de Portugal. A partir de três dos grandes momentos de ruptura – ditas “revoluções” – Sttau Monteiro coloca, num registo sarcástico, irónico e divertido, o que é, a seu ver, um dos grandes problemas de sempre deste país (e não só): mudam-se os velhos poderes, mas tudo fica na mesma.
O texto recua até às vésperas da Revolução de 1383, que coloca no trono D. João I, avança depois até à Revolução de 1820, onde os vintistas acabam com a monarquia absoluta, e passa pela revolução Republicana, procurando sempre estabelecer paralelismos entre estes momentos e a história recente do Portugal do pós-25 de Abril de 74.
Desbragado, desbocado, descarado, divertido e, sobretudo… implacável para com os poderes instituídos, de promessas sempre prometidas e nunca cumpridas!

do autor


Luís de Sttau Monteiro (1926-1993)
Nasceu em Lisboa, em 3 de Abril de 1926. Aos 13 anos foi viver para Londres, onde o seu pai desempenhava as funções de embaixador. O tempo que aí passou terá condicionado muitos aspectos da sua formação estética e literária. Nesses anos, viveu de perto a tragédia da Segunda Guerra Mundial. De regresso a Portugal, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, tendo exercido, por um breve período de tempo, a advocacia. Publicou o seu primeiro romance em 1960, Um Homem Não Chora. Em 1961, publica-se Angústia para o jantar, que o colocou, desde logo, num lugar de relevo no panorama da literatura portuguesa. Desse mesmo ano é também a peça Felizmente Há Luar!, que revelou um dos mais notáveis dramaturgos das nossas letras. Foi-lhe atribuído, em 1962, o “Grande Prémio de Teatro”. Por várias vezes, foi preso pela PIDE, devido ao cunho irreverente que impôs à sua obra. Fez parte do conselho redactorial de “A Mosca”, suplemento do Diário de Lisboa, onde se celebrizou pela criação da irreverente figura da Guidinha. Foi jornalista e colaborador regular de várias publicações - Diário de Lisboa, Se7e, O Jornal, Expresso. Principais obras do autor: Um Homem Não Chora, 1960 Angústia para o Jantar, 1961 Felizmente Há Luar!, 1961 Todos os Anos, pela Primavera, 1963 O Barão, 1964 Auto da Barca do Motor Fora de Borda, 1966 A Guerra Santa, 1967 A Estátua, 1967 As Mãos de Abraão Zacut, 1968 Sua Excelência, 1971 E se For Rapariga Chama-se Custódia, 1978 Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes, 1980 Chuva na Areia, 1982, adaptação televisiva de um romance que ficou inédito, Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão

FICHA TÉCNICA


encenação, adaptação e espaço cénico
Adelino Lopes

interpretação
(por ordem de entrada em cena)
Luís Paulo, Ana Penas,
José Geraldo, Nádia Penas,
João Campaniço, Ju Soares
Ana Rita, Adelino Lopes
supervisão técnica
João Campaniço
operador de luminotecnia
Carlos Pedro
operador de som
Rui Araújo
coordenação de adereços
Ana Rita
figurinos/guarda-roupa
criação colectiva
colaboração/agradecimentos
Estúdios VR (Vítor Rosa)
João Núncio (guitarra)
Manuel Jorge Pedro (apoio musical)
Paula, Silvestre e Rute (Rádio Mirasado) Joaquim Maurício

Eu pecador me confesso




Os novos sete pecados mortais, segundo o Vaticano:
1. Manipulação genética;
Não é comigo. Quanto muito genital.

2. Experiências científicas em cobaias humanas;
Comigo não deve ser. Se o brincar aos médicos com as meninas na escola porventura aí se enquadrassem, provavelmente, isso já prescreveu.

3. Poluição do meio ambiente;
Será comigo? O derreter de umas cigarrilhas e ocasionalmente de um charutito terão a favor o uso do GPL, espero.

4. Causar injustiça social;
Comigo nã é. Trabalhando por conta de outrem…

5. Causar pobreza;
Aqui tenho dúvidas. A consciência acusa de a auto-inflingir.


6. Enriquecimento obsceno;
Dá para rir! Não é por nada mas lido muito mal com o termo obscenidade. Em geral sou a ela míope.


7. Tomar drogas.
Só das leves: Café, do bom Dão ou alentejano, aspirinas, por vezes “guronsan”.


A espectativa é boa, não há lugar para mais niguém; partilhar o céu com a maria-arvore que detem os outros 50%,

vai ser uma felicidade eterna, só espero que ela não ponha uma almofada a dividi-lo ao meio.

d'aqui

domingo, 16 de março de 2008

A pont-a-pé

Dizem uns que a culpa é da parteira, alcoólica inveterada, ter-me-á lançado tal bafo à nascença que fiquei para sempre assim. Dizem outros que não, assim sou porque Deus assim quis. Está bem pronto, por uma ou pela outra razão, por uma terceira talvez até, o certo é que vivo atarantado sem saber se hei-de cagar ou ir dar corda ao relógio.

Vou-me no entanto orientando pela sensatez desta ou daquele, como a Marie-Baum ou a Hipatia-Gaivina (que ainda hoje os meus neurónios confundem) orientando-me dizia eu, quando mesmo assim não me confundem elas mesmas, isto a propósito de se insurgirem contra a possível proibição de piercings e tatuagens!

Sendo umas pombinhas porreiras, não escapam à fiabilidade da natureza humana pelo que, neste caso, deram passo mais longo que a perna que as levou a uma “espargata” monumental da qual dificilmente sairão. Correm o risco de ficarem com os glúteos –que eu efabulo de apetecíveis- colados ao chão por tempo gerúndio ou continuado.

Não vêem aquelas alminhas que o Sr Zé vela pelo bem nosso? Não lhes entra na cabecinha, por qualquer parte dos corpinhos, que o seu mau feitio de calvinistas contestárias, em desacerto com a ordem luterana, não lhes traz outra felicidade senão o gozo efémero do trautear de um estafado cântico negro, regiano?

O sô Zé nã diz basta de piercings onde nervo, musculo ou zona herógena pulule, por capricho ou necessidade de afirmação de poder. Não porá cobro a grafittis corporais por fúteis razões ou discordância do seu valor estético. Os considerandos que suportam a futura limitação, do liberal uso dos nossos corpos, estão enunciados:
PRESERVAR A SAÚDE e ponto, não final.

Reconsiderem, afinal, que pelo meio de: défices orçamentais, juros, recessões, desempregos, desacelerações da economia, alkaedas e doutas indignações na rua, se o nosso querido e estimado líder, camarada Zé concede a sua atenção ao arame na língua e à tinta da china na pele, é porque elevadas razões, ainda que ininteligíveis para nós, se agigantam.
Abençoado povo que tem o condutor que merece.


Bom o tempo ruge e já vai longo, é altura de fazer a trouxa e zarpar, mas deixem que antes vos diga que me contorço de gozo ao imaginar a vossa cara quando souberem que a maratona de hoje é a ultima. Se nunca a fizeram... paciência, perderam a vossa oportunidade pois razões de saúde -e de estado- a partir de agora correr só será permitido a profissionais.
Porquê?
Porque a cada passada as articulações ficam sujeitas a esforços inimagináveis. Sabem quantas tendinites, contusões na coluna, e rotulas terão ido para o caralho quando tiver terminado a corrida? Não sabem, né? Bué delas.
Nunca tinham pensado nisso, né?

E quem paga o concerto disso tudo? Ah pois! O Serviço, gratuito, Nacional de Saúde. Certo?

sexta-feira, 14 de março de 2008

como eu para aqui

Estava para ali, como eu para aqui, sem saber o que fazer.
O relógio lá da parede, entalado entre a equipa do glorioso e do Atlético local, assinalou com o atraso devido as dez horas. Pediu uma rodada, o Cebola voltou a encher os dois copos.
-Disse uma rodada, e apontou-lhe para o peito.
O Cebola riu lembrando-lhe: Sabes que nunca bebo em serviço -manias que lhe ficaram da polícia- pensou resignado, mas o espanto foi vê-lo sacar de um copo e "enchê-lo" por meio.
Ergueu o copo com o tradicional à nossa, o Cebola mindinho espetado retorquiu: e aos ausentes, o velho anuiu –isso.
São assim de poucas falas e afectos ocultos, os homens da terra que os viu parir. Eu de longe, como que planando, confesso que os invejo, sobretudo porque parece que não invejam ninguém. Penso se não serão uns resignados…
Com um até atirado para o meio dos dois rumou a porta, antes de mergulhar na luz ainda apanhou: -Logo, depois de fechar, tenho uma cabeça de borrego.

Nós que a terra tece!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Elementar, caro Watson


- Doi-me o peito Doutora. Será do cansaço? Do Bagaço?
- Outra vez? Já lhe dei uma data de remédios. Pronto, tome agora lá este.
- E vai fazer-me bem?
- Francamente não sei, pode até provocar-lhe um certo mal-estar, efeitos secundários, sabe o que é isso não é.
- Sei doutora, a senhora é que não sabe, ou não pode, ou não quer (?) fazer o diagnóstico correcto, né?
- Bem…
- Se calhar é melhor analisar melhor a situação doutora.
- Oh homem! A doutora sou eu, e a bem da ciência da educação, digo, da saúde as cobaias são sempre necessárias.
- Mas doutora, os efeitos secundários, sou eu que levo em cima né?
- Você é que sabe, mas olhe que corre o risco de, de…
- De quê doutora?
- De o retirar da lista dos bons pacientes. É isso que quer, veja lá bem.
Depois não se queixe, não vejo alternativas, e mais não digo.
***
Dr.
dói-me o peito
do cigarro
do bagaço
do catarro
do cansaço
dói-me o peito
do caminho
de ida e volta
do meu quarto à oficina
sem parar
sempre a andar
sempre a dar
dói-me o peito
destes anos
tantos anos
de trabalho e combustão
dói-me o luxo
dói-me os fatos
dói-me os filhos
dói-me o carro
de quem pode
e eu a pé
sempre a pé
dói-me a esperança
dói-me a espera
pelo aumento
pela reforma
pelo transporte
pela vida e pela morte.

Dr.
já estou farto
de não ser
mais que um braço
para alugar
foi-se a força
e o meu corpo
é como o mosto pisado
como um pássaro insultado
por não poder mais voar.

Dr.
eu não sei ler
os caminhos
por dentro
dos hospitais
mas alguém há-de aprender
entre as rugas do meu rosto
o que não vem nos jornais
e não há nada no mundo
nem discurso
nem cartaz
capaz de gritar mais alto
que as palmas das minhas mãos
que o meu sorriso sem jeito,
Dr.
Dói-me o peito…

José Fanha, Eu sou Português aqui, ed. Ulmeiro

segunda-feira, 10 de março de 2008

A terra

Voltei sem muito entusiasmo à terra que me pariu, não me puxava para aí a ideia, parecia que as adivinhava. À primeira impressão estava tudo conforme a deixara: ruas vazias, o mesmo canito de rabo entre as pernas, lombo arqueado e olhando sobre a espádua, atravessava em diagonal um cruzamento frente à viatura da guarda em velocidade e faróis mínimos; eram dez e meia mal dadas, e o camião de rações que me dera boleia, seguiu após a eloquente despedida a condizer com a eloquência da viagem. Do motorista ficará a memória da destreza com que manipulava o palito entre os dentes.
Dei a volta à tranca de madeira, aliviei a porta dos gonzos sem evitar que roçasse o chão; fiquei parado por momentos e entrei tranquilo ao ouvir o ronco do velho; a dois passos o bafo a vinho garantiu-me que só na manhã seguinte teria de responder às perguntas que ele não faria. Enrolei-me nos fios que restavam do cobertor enrodilhado ao pé da cama e deitei-me na ponta que não estava manca, amanhã se não a consertar dou-lhe a volta, pensei e assim me fiquei.

Via o palito a bailar estranhamente na minha boca, cuspia-o e o teimoso voltava, abri um olho e dei com o rabo do rebaptizado Plantão que Platão não vingara. Nem foi preciso enxota-lo, foi-se dando ao cu.
O cheiro a café de saco indicava que o velho já se pusera a pé, soergui-me e não me admirei de o não ver, espreitei pelo postigo e o quintal vazio e a porta da cagadeira aberta davam para concluir que abalara. Uma xícara de café e um canto de pão com linguiça depois, fiz-me à vila, desculpem, à cidade pois atão!
Rumei ao café do Eusébio desviando caminho pela tasca do Cebola. Lá estava o velho a três quartos no balcão enfiado no capote. Um olhar para mim, outro pó Cebola, um trejeito de cabeça e lá tinha eu que me haver com um copo de três. Pronto, estava de volta, pó velho nem sequer chegara a abalar.

Pousei os braços no balcão, olhei-o. O velho está porreiro: a mesma barba por fazer, a mesma boca teimosa, os olhos, os olhos... um pouco mais pequenos, talvez.

domingo, 9 de março de 2008

Olá. Ist’assim nã dá, olé.

Vivo de desilusão em desapontamento até ao final julgamento. Se já estava pelos poucos cabelos que me restam, imaginem como estarei agora que voltei quando deixei terras lusa feitas num caco para a reencontrar feita numa caca. Mal tirei o pé de Badajoz, teso como carapau, e com ele mal assente em Elvas, assalapou-se-me uma esquizofrenia que outros teimam em chamar-lhe esquisoide; o certo é que o canto de sereias das novas oportunidades, pelo primeiro ar que me dava nas ventas, abalou-me o dedão, subiu, foi subindo e instalou-se na virilha. Para trás estavam cinco meses de maior insusexo. Afinal Madrid não é o que contam! Não nego que nossas hermanas transpirem mucho salero –e não só– admito ainda que sejam muy guapas, –algumas– mas porra, aquilo é uma ilusão; tirando o chêro um pouco pó mais doce, a merda é igual: um gajo entra no elevador e a reacção a uma tentativa da menor sociabilização, encostam a pêda ao espelho, abraçam a mala junto ás mamas e põe o olhar no tecto.

Bom, adiante, não vos prendo com pormenores da viaje até Lisboa. Sem ideias preconcebidas, instalado na Suiça, resolvi dar por bem empregue os pouquitos €s que me sobravam: -Uma bica cheia por favor. Saco do Destak e, de olho na página, olho no passeio, armado de paciência lá vou vendo as pombinhas passar. O Rossio já foi chão que deu uvas ou então a porra do efeito de estufa deu cabo desta merda da primavera. Bifas nem vê-las! Se calhar é da recessão… mas então! Esta merda tá mesmo mudada, querm lá ver?
Por volta das duas o metro começa a despejar gajas e gajos vestidos de preto que se vão ajuntando. Há de tudo! Aquilo ia do marisco á bifana, não era dos 8 aos 80, mas garanto-vos que dos dezoito aos sessenta devia ser e se erro não será por muito. Há medida que se arrebanhavam começaram com missa cantada:
TÁ NA HORA TÁ NA HORA… fez-se-me luz, tínhamos manif. Ah a saudade! Aquilo bateu-me cá duma maneira! Mas as manif's já não são o que eram. Bons tempos em qu'um gajo dava o tempo e dor de pés por bem empregues: as amigas que fiz, o que aprendi, o calor humano, a comunhão de intenções e de gostos… Inda tenho lá para casa um porta chaves com uma estrela que me deu uma ruivita beijoqueira que se pudesse -e eu corresponedesse- dava mais quecas numa semana do que sardas tinha na cara. Bons tempos!
Adiante, tinha a abertura de caça à pombinha estragada, é o que era. Uma manif e ainda por cima mal organizada, mas prontos, não admira pelas conversas, aquilo era coisa de professores e a gente já sabe do qu’é quesses malandros são capazes, né?
Afinal… Afinal, a modos qu’a coisa não era bem assim. O metro não parava de arrotar gajos! Uns de rabo de cavalo, outras sei lá de quê e o TÁ NA HORA TÁ NA HORA não parava. Três e picos, ai jajus, aí vinham eles! Porra não vos conto que já vos enfiei tantas galgas que vocês vão pensar que é mais uma, mas vá lá, imaginem uma catrefada de gente, isso, ponham lá mais uns quantos e nã chega, ponham lá mais dez vezes mais uns quanto e nã chega.
Olha fui atrás dos gajos, pó qu’havia de me dar. Puz cara d’índignação, qu’eu nã sou lorpa, e s’olhassem pa mim de lado dizia qu’era professor de trabalhos manuais em Montemor. – O velho? Mas eu sou de lá!!! –Nã do Novo do NOVO, porra.

Bem, lá fui eu. O Terreiro do Paço já tava composto sim senhor, até já mandavam bocas de que eram 80000, também não era preciso exagerar, né? Pelo andar da carruagem isto não acaba sem anunciarem que são cem mil, mordi eu p’ós meus botanitos, salvo seja, que o casaco tem fecho.

Olhem desculpem lá tá a dar-me a sonêra e o papo já vai longo.
Pode ser qu’eu volte ao assunto se entretanto nã abalar pa Copenhague e nã me faltar a tesão.

sábado, 8 de março de 2008

Os feios porcos e maus

Cada vez que se metem professores pelo meio… andamos às turras, e eu gosto tanto dela e ela de mim!

Dão muita jêto, não porque me permitam brilhar mas… vejamos:
Dos 100000 aquilo era tudo bom os que não eram ficaram em casa. Dava muita jêto, não dava?
Quantos calaceirões não andaram avenida abaixo com o ESTÁ NA HORA, ESTÁ NA HORA na boca? E desses quantos não terão sido reconhecidos ali mesmo na rua, ou nas fotos que dispararam por aí? Tou mesmo a ouvir: -Olha, olha aquele malandro que passava a vida de atestado só porque a mana é médica no Santa Maria. Cambada de malandros vão mas é pá estiva. Fosse eu ministro da educação e esses apontados a dedo não iam pá rua, pelo menos, enquanto a avaliação não estivesse toda encaixada nalgas acima, óbvio não é?E de quem é a culpa? Sem cinismo; dos prof’s. E porquê?

  • Porque têm a mania de dizer que dão aulas, armados em beneméritos, quando as vendem (e caras na opinião de muita gente), é verdade que o custo hora é “ligeiramente” mais baixo do que o de um mecânico, mas justifica-se pois um suja as mãos de óleo e os prof´s, bah! Pó de giz e já se queixam de alergias;
  • Porque se gabavam, os mentirosos, de trabalhar 22 horas por semana escamoteando as reuniões, preparação de aulas, correcção de testes, planificações, preparação de actividades extracurriculares e abstenho-me do etc. porque ficava mal visto;
  • Porque passam a vida vangloriando-se –Hoje não dei aulas, fui a uma visita de estudo; Note-se que se fartou de gozar: andou quase à galheta com os pintas que queriam palmar um telélé ao Rui, mamou Cheese Burger porque os putos acham que no Mc é qu'é fixe, foi à farmácia comprar "Alkaselsa" porque houve qualquer coisa que lhe caiu mal no "estomágo" e ainda poude apreciar o Jerónimos mais um tempito porque a Rute foi ali.
  • Porque aquilo é um forró, dia da arvore, do pai e da mãe, quando não andam atrás de putos bexigosos e de aparelho nos dentes a organizar o baile dos finalista, o pedypaper ou o rugby na lama.
  • Porque aquilo é uma calhandrisse pegada entrando na vida das famílias a querer saber porque é que a gorda se ameaça matar, o matulão deu na passa e o preto agora até já na preta bateu.
  • Porque ostentam computadores portáteis, abrilhantam gandas máquinas a gasoil fazendo 80 Kms pa ir trabalhar, por vezes por horários incompletos, só de ricos!
  • Porque refilam se a minha tia lhes entra casa alugada adentro quando quer ir estender roupa ao sótão;


Porque, porque e porque.


Pois é estavam mal habituados:
Era a treta da soberania e autoridade na aula. Agora? Chapadão nas ventas e por muitos que putos e familiares em primeiro, segundo e terceiro grau lhes afinfem, ainda fica muita palmatoada e canada por ajustar, afinal aquelas que todos nós carregamos nos genes, desde a cartilha maternal, e é para não ir mais longe.
Coitadinhos! Trabalham uma horita, vá lá, hora e "meiíta" e descansam cinco minutos ás vezes dez até.
Tadinhos! Aquilo é tudo gente frágil, se têm mais de vinte alunos na aula… -Ai Jesus, aqui del-Rei, já não aguento mais da cabeça.


Olhem, sabem que mais? Porque, no caso do meu primo, é parvo (estúpido, não tem nada a ver com o latino parvus, parva, parvum=pequeno) parvo mesmo porque se podia ter reformado aos 57 e com a mania de que estava bom para as curvas, não contou quatro anos que trabalhou no ultramar.


BEM FEITO
VAI GOZAR, GOZAR, GOZAR A BOA VIDA DE PROFSSOR ATÉ 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Tirem-me daqui

Não é que’eu seja um liberal militante mas isso não quer dizer que seja adepto do estado providencia, fará adepto do patrão providencia.
Esta relação que me prende ao tipo que me deu vida, segundo ele afirma, tem de acabar. Já pedi a minha desvinculação e o sonso faz-se de mouco ou, eufemismisticamente pequeno, parvo para ser mais preciso.
Que tenha paciência agora porque lhe morreu a avó, logo a seguir a prima. - Isto há-de compor-se, diz-me com voz doce e depois… depois não dá porque agora finou-se a tia e, quando ia dar, nem na anedota de alentejanos justificando a falta à segunda-feira… morre-lhe o paizinho!
Oh! meu amigo, tenha paciência, chega de desculpas mais esfarrapadas que chapéu de maltês, ou isto anda ou quero a carta. Qual carta? A de alforria, pois então! Mais um tempito? Querem lá ver? Vá lá mais um tempito e depois... toca a tocar a caneta.

E assim vou eu esperando por Godot, sem saber se o genocídio familiar é causa ou efeito, se valerá a pena esperar. Assim vou eu escriba virtual e para todo o serviço, dependurado em cabide de cornos de veado. Para aqui estou pele amorfa, ansiando que me vistas de vez, me animes, te dispas de desânimos.

É agora? Não? O quê ? O filho “atirou-se-te” à linha do comboio! Deixa-me rir, trespassa-me, vende-me ou mata-me.
Não dá? Olha então mata-te.
Assim não dá.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Queijadas Vargas

Fazia, como se costuma dizer, contas de cabeça, a coisa não corria mal de todo. Em boa hora se despedira da Rodoviária e se dedicara ao negócio da mulher. Parecia impossível como a vida se encaminhara. O Vargas, praguejou com a buzinadela e a ultrapassagem à maluca da mota, encostou logo à frente para descarregar mais uma encomenda; em menos dum esfregar de olho continuou para o novo cliente na volta da sexta, uma volta complicada pela intensidade do trânsito. Era assim e às segundas também e então em início do mês… ainda era pior. De novo voltou ao fio da vida: em garoto quando ajudava o avô Vergas sabia que não acabaria a vida a fazer cestos e vassouras.

O Vergas, apelido que ganhara, cuidava do neto com os tostões arrecadados nas feiras saloias, da Ericeira à Malveira carregando a carroça com a cestaria e o neto que não conhecera o pai, caído no cumprimento do dever, como dizia a filha da puta da carta que desfizera a sua vontade de viver. Restava-lhe a consolação do puto ter saído com a cara chapada do pai e não da rameira que se pusera a andar sem ter acabado de lhe dar de mamar.
E a volta continuava da mesma forma que começara de madrugada em Stº Isidoro: uma dúzia aqui, meia mais à frente, na ida por Mafra e na volta por Loures, naquele dia cismando mais do que nos outros; sorria agora com o seu próprio nome, promovido de Vergas a Vargas, não sabia bem se por golpe de asa do padrinho se por erro da conservatória.
A lembrança do avô toldou-lhe o coração e quase lamentou não ter ficado mesmo Vergas, é verdade que para isso contribuía a opinião do filho que até punha a hipótese de retomar o nome se viesse a ter descendência.
O olhar iluminou-se só de pensar nele, no grande homem em que se tornara, como estudara sempre a ajudá-los e como o empurrara para virar o negócio numa empresa invejável. Não fora ele a picar a mãe que tanto jeito tinha para lhe dar a volta e ainda amassavam e coziam no anexo da casa. Agora… agora era um empresário a sério. Uma fábrica com tudo do que há de mais moderno, quatro operárias, cinco carrinhas, com caixa frigorifica, calcorreando léguas por dia a distribuir as “Queijadas Vargas” por supermercados, mercearias e pastelarias: Coimbra, Figueira, Leiria eram o destino e já Aveiro e até o Porto bailavam na cabeça do filho! Bem o avisava: Não dês o passo maior que a perna… e a danada da mulher, sempre aliada ao filho, logo ripostava: Está tudo pago não está?
Estava. Estava tudo pago mas não havia necessidade de esticar a corda. O filho, o Dr. João Vargas –sorriu– explicava que a rentabilidade e a garantia de ocupação do mercado e a estratégia de … eles lá sabiam, queria lá saber...
Seguia agora por Campolide, a volta compunha-se e na próxima entrega, longe do controle da mulher, tomaria um cafezinho e um rissol marcharia porque o “os diabretes” até andavam controladitos.
O para-arranca continuava quando PUM.
Um estrondo, uma dor aguda no peito, cegou! Aos poucos recuperou, não percebendo como entalado no volante e pelo vidro estilhaçado se via enfeixado num carro estacionado á sua direita. Ajudaram-no a sair, e deitaram-no chão. Via rostos sobre si e uma voz clara:
-O sacana do velho atropelou o rapaz.
Fez-se escuro.

Voltou a si, uma multidão pululava, o som estridente de uma ambulância desfazia-se, uma voz amiga confortou-o:
-O homem está bem, teve sorte, caiu do terceiro andar em cima de si, se tivesse sido na estrada...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Carta aberta à minha lady

Di,Dizem, e eu concordo, que nasci com o cu virado para a lua, mas na verdade a lua move-se tal como eu e por isso a conjunção de cu/lua desfez-se momentaneamente.

A Augusta, o rapaz e o pátio, quando vier aí um quarto crescente a caminho de lua cheia, por certo voltarão. Por agora faço o papel de Sebastião Carvalho e Melo, cuidando dos vivos.

Em momentos fugazes deixarei registos como este:

O carácter julga-se?
Vem isto ao caso de Maria de Lurdes Rodrigues, na qualidade de figura pública, independentemente do direito de lutar pelas suas convicções e de exercer o legitimo poder que lhe confere o cargo, ser uma excelente comunicadora: verbaliza muito bem, responde ao que lhe convêm e ignora o que lhe interessa. Mais... na sua excelente performance na entrevista de ontem, socorre-se de formas de comunicação elaboradas tais como a expressão gestual, do olhar e de todas a cambiante de timbres que vão do delicodoce ao agridoce maternal.
Louvo-lhe a competência demonstrada na tentativa de dar o dito por não dito quando “
Na entrevista que deu ao DN, na terça-feira, a ministra da Educação reafirmou a intenção do novo Estatuto do Aluno de não chumbar ninguém por faltas.”(…) e na entrevista nega que a versão final do Estatuto do estudante, tenha sido alterado pelo parlamento. Tapa o sol com uma peneira. Parabéns à Sra. Ministra.
Inevitavelmente sim, o carácter julga-se, espero que a pessoa seja mais digna que a politiqueira.

É assim Di, não dá para mais.

Um beijo do teu,

Erecteu

sábado, 27 de outubro de 2007

O céu não existe.

E se por acaso existe mesmo? Não será melhor precavermo-nos não vá ele desabar sobre as nossas cabeças?

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Falta-me a pica

quando vejo a tragédia abater-se sobre meio milhão de pessoas.

Em três dias o horror instalou-se no lugar dos sonhos. Aqueles que já não sonhavam convivem agora com o pesadelo.
É bem feito, é castigo, soa-me dali onde rebolando-se de gozo vêm na Califórnia Sodoma e Gomorra. Os quatro elementos rebelam-se, o apocalipse vem por ondas: primeiro de mar e vento, agora de fogo, depois se verá, pensarão os moralistas decepcionados com a partida do tempo que não atenta a números redondos. Passámos 1000, chegámos a 2000 e se tivermos juízo a 3000 chegaremos; tratemos convenientemente do nosso ninho.

Falta-me a pica, mesmo quando ela se abate sobre uma cabeça.
Acordei e vi sinteticamente escarrapachado:

Grávida aos 11 anos
Criança espanhola pode ter sido vítima de violação
As autoridades espanholas estão a investigar o caso de uma criança de 11 anos, grávida de vários meses, que deu entrada num hospital em Léon.

Falta-me a pica quando leio a seguir:

A criança terá mais de três meses de gravidez, o que, de acordo com a lei espanhola, impede a realização de um aborto, mesmo tratando-se de uma violação.

Ainda bem, pensarão convictamente os "defensores da vida", assim não há legalmente a possibilidade de intervir. Talvez tenham razão, se Aquele em que acreditam tomar conta da criança, tudo bem. Se por acaso o destino lhe antecipar o inferno na terra, não me digam que dele é, depois, o reino dos céus. Se entretanto a vida não lhe for mãe, se de esticão nos levar a carteira, não sejamos madrastos, intercedamos junto do juíz, apelemos à atenuante da sua natividade.
Falta-me a pica, porra.