terça-feira, 11 de setembro de 2007

Lamechices

Detesto-as e tropeço nelas constantemente; mas é a vida na sua lei, como a gravidade que me prende nesta órbita apertada de planeta anão em vias de desclassificação.

***

Descalços e ignaros escolheram a gasolina, as pedras, e oTNT.

Foram, à sua maneira, "davides" e "quixotes" acometendo, golias blindados sem os confundirem com moinhos de vento e, à nossa maneira, foram gozados .

Rimo-nos dos loucos que insistem em bater com a cabeça nas paredes, rimo-nos até aprendermos que os loucos são capazes daquilo que não nos passa pela nossa.

Um dia o mundo, atónito, viu a barbárie trocar pedras, gasolina e coletes por aviões; trocar blindados e muralhas por Torres Gémeas e trocar o seu campo de batalha, pelo nosso.

Só não trocaram o grito final: Allah ak bahr

foi um triste dia, gritou-se -assim não vale-


O Primeiro Dia

A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.


Sérgio Godinho -

Afinal... não afinal

Afinal...

-Como é que se acaba com um blog?
?!!! – Mas tu tens um blog?
- Não que ideia, sabes bem que não.
-Então…!
-Mas gostava de ter.
-Lá tás tu a mancar-me.
-A sério, diz lá.
-Mas se não tens…
-Mas posso vir a ter, né?
-Mas não tens.
-Supõe que tenho.
-Tá bem.
-Como é?
- Acabas, fácil!
- Ponho um post a dizer: acabei?
-Pronto, supondo que tens, né? Como começaste?
-Escrevi um post, ora! Mas a questão não está no começar, como acabo? Se quiseres acabar o teu como fazes?
-Sei lá! Deixo de escrever, ora!
-Não sabes? Tens um blog e não sabes como acabá-lo?
-Nunca pensei nisso, porra.
- Tch! Foste sempre um irresponsável.
-Chiça, tá bem... vou pensar nisso.
-Improvisa.
!?
-Sim imagina que queres acabar.
-Tás louco? E o pessoal: Erecteu anda lá, dá lá mais uma… ou: não faças isso a malta gosta muito de tu, blá, bláblá…
-Ai é?
-É, para além disso um gajo mesmo que apeteça não diz.
-Não?
- Claro! Um gajo quando quer, faz, não diz.
- É! Tens razão. Mas parece mal, dar de frosques e não avisar, né?
-Pois, mas se um gajo avisa, parece que está a pedir batatinhas!
-Pois é.
-Pois é.
-Tchau.
-Até à vista, vou de férias.
- Olha essa era uma boa para…
-Não recomeces, porra!

... não afinal

Comecei a blogar porque um sacana de um amigo blogava entusiasticamente.
Porquê?
Pelo desafio de dominar uma ferramenta esquisita; depois, pelo deslumbramento da descoberta do prazer da escrita que encontrei por aí espalhado; escudado no anonimato, foi-me possivel ousar também.

Por fim, mas não finalmente, apercebi-me de que me era dado um enorme carinho que, tenho que confessar, me fazia muita falta. O entusiasmo era porporcional à incompreensão pelo apreço e incentivos recebidos. Entretanto a barra esteve bem preta por mais de uma vez; em todas senti um enorme e discreto apoio. As forças foram faltando na justa medida em que o "Com menta" mais pedia, projectos fermentaram e ficaram por aí, outros por fechar; sobreveio o complexo de culpa de mais receber do que gosto dar!

Pensei mais do que uma vez em acabar, sem saber como. O texto aí acima esteve à beira de um click. Imagino o que será chegar a casa e dizer -"Olhem, vou-me, fiquem bem."- e a familia a olhar aparvalhada. Pretensões.
Parvoíces, mariquices, afinal não devemos nada uns aos outros, somos fortes e livres, durões e mais...VIRTUAIS, se não me engano.

Desta forma propus-me aguentar um ano, 365 dias, chegou finalmente o dia. Merda, e depois?

Não o faço agora, mas um dia, qualquer dia... lá terá que ser, né?

Nota: Aqui abaixo, foi o primeiro post, antes das minhas MARIAS me ensinarem a pôr música! Revejo o poema e encontro-lhe, @penas, ainda mais sentido!



Eu fui devagarinho
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus

Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder

Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entre a paixão e a dor

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti.

Mafalda Veiga

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

36 linhas - III

-Com o que temos.
-E como podermos
-Assim faremos
-Diga lá
-É para já
-Nesta moita?
-Se for afoita…
-Não me conhece
-Bem me parece.
-Vamos então
Foram,
avingaram
e atornaram

-Estou melhori
-Mereciam piori
-Naqueli pinhal
-Tal e qual
Foram,
e atornaram
-E s’ele foi por traz?
-É, é bem capaz!
-Ai a safardana...
–Avinguemos à canzana.
-Naquele cabeço?
-Para começo
Foram
-É para saberem
-E p’aprenderem…
-Nã seja assim.
-Pois cá pra mim…
-Ganda castigo
-Bem merecido
-Nã podia ser maiori
-O mê home bem merecia
-Mas sabi, comadri…
-Sê… Acabousse-lhe o rancori.
Conclusão: Vai-se a tesão, vem-se o perdão.


AVEnturas ou restos de estação

Há de tudo um pouco;

os guarda de Jan


são talvez como eu

gostam de misturas!

Gaivotas em terra...

sem tempestade no mar

como são belas,

lá no ar.

POSTuras

Tudo é relativo, Carlo que o diga.

Dão nozes os deuses

que alguém desatará,

tal como Bob

ou os que passam

para onde, não sei.

domingo, 9 de setembro de 2007

Sou chegado de oito – 8 – oito dias de “alienação”.
Na TV “sic” os McCann ocupam horas, porque, implicitamente, se baldam.


Recordo que há uns tempos discordava, sem convicção, da opinião de um amigo que confidenciava achar a atitude de Kate McCann um pouco estranha. Na verdade também a achava, mas… Mas uma mãe não pode fazer mal a uma filha, por isso, o meu amigo é maluco. O comportamento estranho que eu reconhecia advinha de uma forma diferentre de cultura. Uma cultura que não leva, perante a dor, a arrepanhar os cabelos e a lançar gritos alucinantes, só, só isso.

Na primeira visita que faço, tropeço em: Ainda filhos da mãe.
Mãe é mãe. Carrega no ventre, amamenta, super-protege, é leoa, pode até ser louva-deus mas… se não o for, não há Édipo que lhe perdoe.

São assim os filhos da mãe.
***
Entretanto, se há que assinalar algo de triste, é a perda de um enorme peso de simpatia.




quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Vou de férias

vou-fazer-me a terra, terras d'àfrica, já ali Marrocos, uns dez dias.
adeus até ao meu regresso


Está tudo programadinho, deixo o melhor para o fim, uma semanita de “farniente”, que é como quem diz, uma cancêra:

8:30 Pequeno almoço – ovos bacon wurtz-qualquer coisa sumo de laranja natural, café com leite, pão fiambre manteiga, café cruzsanta e fico-me por aqui para manter a linha.
9:00 - Lições do que não digo pois pode parecer mal a um tipo com pretensões de qualquer coisa de esquerda (democrática).
11:30/12:00 – Banhoca na piscina, abanar o cú ao som de Schumaker vruum, vrumm, mirada para as GMs: esta não celulite a mais, aquela livra! fala demais, aquela ía mas é demasiado chavalita, é tudo demais! Que s’a lixe logo vejo o que se arranja.
13:00 – Almoço, uma merda, três voltas às mesas troca de pratos sujos para provar mais isto e aquilo, contenho-me um pouco para manter a linha.
14:00 – hobby Convenço o GO que nem almocei, amonto-me num e faço-m’ao mar, dou uma ratada num francês que tem a mania qu’é bom e bom há só um: Eu e mais nenhum, né?
15:30 – Lições, vou de novo para aquilo que vos não digo, no caminho concentro-me no que é importante: a pega, o calcanhar, não flectir perna nem braço, rodar o tronco, não tirar os olhos da bola, folow-thru, etc…
18:00 – Piscina de cima, costuma parar por lá uma bifa bemfeitota, não nada, só lê, hei-de mandar uma carpa ou um anjo cagaja logo até s’agacha.
18:30 – Quarto banho, 20 minutos de cama em pelota, TVnews, calcita de linho e camisita de seda negligé, mont-blanc (pouquinho que não sou como labrego do espanhol)
19:30 – Bar cuba-libre ou gin-tónico, alcagoitas, papos páli sorriso pácolá, encolho um pouco a barriguita cagaja até t’á olhar.
20:00 – Jantar, escolha estratégica de mesa guardanapo atravessado para o galifão do italiano saber como é, marcado o lugar, umas entraditas p’ábrir, o pêxito até tem boa cara, a carnita tem que ser pa nunca faltar a tesão, conversa à esquerda e à drêta, puxar d’assunto que… vocês imaginam a táctica, né?
21:30 – Bar de noveau, café uma aguardentita, espera-se pelo espectáculo, insinuo-me aqui e mais ali, estás aqui estás lá querida, poisa poisa que já vês, nã tenho pressa.
22:00 – Especáculo. Já vi melhor mas nã foi mau, cá pa mim a bailarina atá olhou duas vezes có pó meu lado.
23:30 – Está na hora de dar às ancas: Schumaker vruum,-vruum, caralho, cadê tangos, pasos dobles, valsas, et je.t’aimes.móis.non.plus?
01:15 – Gajas! cambada de fufas, pata-cas-lambeu que só gostam de yé-yé. Vou-me mas é deitar camanhã tenho golf logo às.9:00



***
Uma semana depois, em casa, casa de banho, ao entrar pá banheira:
Parece que estou mais gordo e não comi nada, nadinha, nem uma.


Foda-se!



PS- Se pensam que é assim, enganam-se é bem pior.

domingo, 26 de agosto de 2007

36 linhas - II

d'aqui
-O dedo?
-Nã tenha medo.
-Olh’a esperteza
-Vej’á dureza
-Querem lá ver!
-Vejo, vejo tremer.
-Purinha indignação!
-Ou purinha paixão…
-Malandreco…
-Chegue-se perto.
-Cá por mim…
-Vá lá… assim.
-Ai a cantiga…
-Não é minha amiga?
-Amiga sou.
-Ah! Melhorou…
-Meu estuporzinho…
-Rancorzinho?
-Nã, rancori.
-É mas’é amor.
-Pois veremos.
-Comadri… avinguemos.
-Mas o quê?
-Mas… você!
-Ensadeceu…
-…Mais eu.
-Ora! O que sabe?
-O compadre…
-O meu Zé Maria?
-E aminha Bia…
-Oh! Pode lá ser!
-Andam-se a entreter.
-Ah! Ele é isso?
-Juro, sob compromisso.
-Compadri, avinguêmos.
-Com o que temos.


Picasso, O Beijo

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

36 linhas

Picasso, Old man
-Olá compadri.
-Olá comadri.
-Como vaí?
-Ãh
-Vai mali!
-Nã.
-Atão… vai bêm!
-Nã tambêm.
-Heim!
-Nêm bem… nêm Mali…
-Hiii! Podi lá sêri.
-Mas pois’éi.
-Encismado?
-Nêm por isso.
-Vá lá! Coitado.
-Bêm, o chouriço…
-Qu’é isso?
-Atormenta-mi…
-Nã percebo!
-Vai um aconchego?
-Ai Jasus!
-Foi o que supus.
-Credo!
-Faz-se luz?
-Esteja quedo.
-Um safanão?
-Já vi…
-...que não.
-Oh! Toleirão.
-Fico quedo?
-Faça com’ó Semedo.
-Com’então?
-Compadri… use a mão.
-E vocemecê o dedo.

Conclusão: Haja mão e dedo
E ninguém tenha medo.






Terra a terra

Problemas técnicos forçam-me a uma paragem. Uma fuck'n guia de valvula, retorcida. Volto a casa e tropeço no tempo, no tempo que não dá para nada, nem para pôr as contas em dia.
Lá, de doze horas em doze e picos a água some-se. Os cientologistas lá saberão porquê. Eu só olhava e via à minha volta.

Quem vai para o mar avia-se em terra, e os prós sabem-no;
melhor do que ninguém,
os contras:
rondam com o vento, encostam a barriga ao chão, às vezes, muitas, ao balcão;
há-os que elegeram um pouco de areia e de mar como sua pátria,não querem saber de informações de transito ou de remodelações governamentais, quando as há.

Em breve voltarei por uns dias às preocupações de ventos e marés e suas amplitudes, para fingir sonhar que sou feliz. Depois, qualquer dia... Moroco.
Talvez eu conte as contradições, qualquer dia... qualquer dia.
Até lá vou deixando algumas impressões digitais.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

SOLdaduras

Os dias podiam ser iguais,
mas como as horas,
e até os minutos,
não são.
é demais!

O que fiz eu para merecer isto?

***
mais uma vez no balanço de yó-yó passo para deixar algumas impressões e lá me vou, coitado, eu.

domingo, 5 de agosto de 2007

a preguiça doi-me de prazer

o mundo mágicoda funtasia feito de pequenos nadas,
labuta à conquilha
"ameaças"

e promessas

***

feito yó-yó, ariba e abajo, vou deixando aqui as conchas onde tropeço

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

parafraseando

O tempo ruge renovo o prazer de atolar os pése desatolar a cabeça pois não há nó que não se desfaça
Um pouco mais de azul e tudo seria perfeito

porque busco o que tarda em chegar

***

foi o tempo de descarregar uns apontamentos, de resto uma espreitadela ao meu ciber-amor e cá vou eu de novo

até já

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Chega-se

desembarca-se

e é assimou assim
o sol nasce para todos, a sombra também até já

não falta muito