-Vê lá como falas.
Era o que faltava, agora até com a maneira de falar entenicava!
-Pronto pirosos, interesseiros e, e… merdoso, disse desafiadora.
Gustavo olhou para ela, não disse nada, agarrou na pasta dirigiu-se para a porta, estacou voltou a traz e beijou-a na testa; apertou-lhe suavemente o ombro e disse-lhe: -Porque é que não sais? Vai até um cinema, liga a uma amiga…
-Não me apetece, faltava agora seres o meu guia!! Disse acabando a frase num tom ligeiramente alterado.
Sorriso amarelo ainda lhe atirou: -Porque não vais às compras? O Natal não tarda…
-Deixa-me, por favor deixa-me, respondeu a meia voz, olhos aguados.
-Está bem, por favor telefona-me, se qui… lá mais para diante. E saiu.
Um aperto no estômago apoderava-se dele, reviu os últimos anos das suas vidas, a entrega total à família, a boa situação que tinham, nada, nada parecia satisfazer Guta; durante uns tempos a coisa ainda foi indo, sem dúvida que o psicólogo ajudara. Maldita a hora em que brincara com isso, tinha sido simplesmente para banalizar, desvalorizar… maldita a hora.
Uma violenta buzinadela trouxe-o de volta, ia fazendo a bonita, nem deu pelo Stop! Concentrou-se, direccionou os pensamentos para a empresa.
Guta levantou-se de um pulo, passara mais de uma hora no sofá sem dar por isso, sem nada fazer. Dirigiu-se à pequena casa de banho, escovou rapidamente o cabelo, mirou-se e achou que devia por um pouco de cor no rosto, -à fava, pensou. Agarrou no carro e dirigiu-se para a estrada de Sintra, andou uma centena de metros e virou bruscamente o carro na outra direcção.
-Que é isto?

-Isto o quê?
Encarnado como um tomate, gaguejou e nada convincente dissera-lhe: -Era para ti, tenho-a aí há nem sei quanto tempo.
-Para mim uma flor? Nunca me deste uma flor!
Irritado, encarnado, gago: -Ma… mas era.
Não voltaram a falar sobre o assunto, se ele pensava que a comia por parva, bem podia esperar sentado. Uma flor, uma simples flor já seca dera cabo de tudo.
Ficara-lhe a imagem dele mochila dela a tiracolo e dela apoiada no braço dele. Era uma parvoíce já lá iam quantos meses… fora em Abril, Maio? Dina prometera que ligaria mas… é o ligas…
Parqueou mesmo junto ao elevador e resolveu dar uma volta pelo shopping, tomou as escadas rolantes, deu uma volta pela FNAC com a sensação de que a poderia encontrar, caminhou por um lado e por outro atraída pelo pressentimento de que ela estaria por lá, se calhar no corredor oposto até, Assim deambulou até lhe doerem os pés, desistiu. Sentou-se no bar e para ali esteve até ter consciência que não serviam às mesas, foi buscar um café, beberricou um pouco e pô-lo de lado, não lhe sabia bem. Há dias assim. Sentiu-se perdida, não sabia o que fazer, decidiu-se por fim voltar ao carro, rumou às escadas, procurou as chaves, desequilibrando-se pois não dera pelo seu fim. Recompôs-se, prosseguia quando ouviu:
-Olá.
Não ligou, mas o olá repetiu-se.
Sorridente por trás dos óculos escuros, repetia-lhe enquanto tirava os óculos.
-Olá como está?
desculpem a rapidinha, 30" foi o que se arranjou
Grito de Alerta



















