terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O Guelas - Tempo real


Noventa e um dias era o tempo real, mas quando Pucarinho e Pombinho se voltaram a ver tinha passado, para eles, uma eternidade.
Os primeiros dias, no posto da guarda, viriam a revelar-se uma doce memória, face ao pesadelo que se seguiu.
Primeiro em Évora onde os três inspectores, à uma ou à vez não davam descanso, descanso mesmo. Depois em Lisboa, em pé ouviam repetidamente as perguntas e os insultos misturados com gritos e empurrões; quando os olhos se fechavam vinha o humilhante estalo em plena cara ou o jorro de água fria.
-BURRO, teimoso de merda, o teu camarada já contou tudo.
Podia lá ser! Se ele aguentasse não seria pelo compadre Pucarinho que eles pegavam.
Aquele corpo forte, desfeito pelo cansaço, já não obedecia. Os braços teimavam em baixar ainda que soubesse o que se seguiria. Há muito que horas ou semanas, dia ou noite tinham deixado de fazer sentido. O pensamento refugiava-se na imagem da terra e dos seus que para lá labutavam. Aí se refugiava.

apanha da maçã, Pissaro

Pois ali estavam, agora na mesma sala ainda que separados pelos guardas. Cruzaram os olhos e o que lhes restava do coração deu para entender que nenhum rachara.

*
**
Três anos para um, cinco para o outro, vá-se lá saber porquê mas fora essa a sentença. Sábia é a Justiça e com ela devemos aprender. O diacho é que não aprendem todos o mesmo e por vezes há alguns que não aprendem mesmo nada.

Mas eles aprenderam um mundo novo: que o sol também se deita por trás de uma ilha, que água do mar tem cheiro e que as traineiras não passam frente ao forte sem saudar por três vezes os que lá estão.
Os dias voltavam a ser mais curtos, quando receberam as primeiras visitas. Na cesta comum para os dois, vinha um pouco de todos: linguiça, azeitonas, queijo e ainda pães. Ah, aqueles pães com algum travo azedo, diz-se que do suor que a terra foi empapando desde que mouros, ainda, o grão lançavam depois da terra rasgada.





Do regaço de Bia saiu aquele papel.
No monte, o meu Zeca é o primeiro, porra.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

O Guelas - Voos

O Zeca passou uma semana a fazer cópias no intervalo. Ainda lhe faltavam duas mas a soussora, deixou-o ir ao intervalo da tarde. Ele prometeu que fazia as cópias em casa mais os trabalhos que temos; são só contas! Será que se esqueceu de marcar a cópia?
Nunca tínhamos tido um intervalo tão grande. O Zeca foi para a oliveira grande e por lá ficou. Depois os meninos começaram a juntar-se à roda dele e do passarinho, do Bico como ele lhe chama. Não queríamos acreditar. O Bico já quer voar! Ele pô-lo num ramo e o Bico começou a piar, depois saltou para o Zeca a bater aflito as asinhas, o Zeca apanhou-o no ar e disse: -Pá semana já voas maganão. Todos queriam agarrar no Bico, o Zeca deixou todos os que quiseram mas estava sempre –Não o apertes.
A professora veio ter connosco, despenteou o Zeca e disse-lhe: Parabéns Zeca e ele, -Oh. Ficou que parecia um tomate. Foi a primeira vez que a ouvi chamar-lhe assim.

*
**

Ainda hoje o Bico é a alegria da escola; juntou-se ao bando de pardais mas não esqueceu a mãe Zeca. Vive na oliveira grande mas mal vê o Zeca voa para ele. Sabe que tem sempre um miminho. O miúdo trás com ele bicharada que me metia nojo, por sinal, já não me fazem nenhuma impressão, as larvas de varejeira.
Aprendi a diferença entre o ser malcriado e talvez, o ser mal-educado. Rebelde como tudo, não, arisco, arisco é que é, explode à primeira. Tem um sentido de justiça exacerbado que o leva a meter-se constantemente em confusões. O que lhe reservará o futuro, nas condições em que vive? Esperto e esforçado, tem superado as insuficiências que trazia, a ponto de estar entre os melhores alunos. Dá muitos menos erros, lê maravilhosamente, interessa-se pela história como ainda não tinha visto. Vejo-me aflita para dar conta dele, dada a rapidez com que resolve os problemas. O fraco dele é a geografia. –Para que quero eu saber essa coisa dos rios e das serras? –Para seres mais culto.

Oh, cultura não enche a barriga lá no monti.
Que lhe faço?

Não confio nela e não posso sem ela viver.

O BOM, O MAU
E O VILÃO
É uma merda a sacana da justiça.

No caso de Esmeralda, vejo a criança a ser disputada por um pai afectivo e um pai biológico. Um é-me apresentado como motivado pelo amor o outro, aqui, como um ser horrível que quer fazer mais valias com uma queca confirmada pela análise de ADN.

O bom Sr. Sargento, tinha "E" 3 meses, adquiriu o direito sobre a criança com registo notarial e tudo! "E" por via desse direito é, agora, Ana Filipa.
O outro, o mau, quando a justiça lhe disse que era pai, segundo indicações da mãe, terá dito: Tenho dúvidas mas, se for verdade, assumirei as minhas responsabilidades. Ganda malandro! -digo eu, o vilão
O pai bom, foge com a criança, como fugiu aos longos, preceitos de adopção. Está no seu direito pois ele queria tanto uma criança.
Esse querer tanto tê-lo-á levado a usar todos os expedientes processuais que dilataram no tempo uma resolução a seu favor, mas, a ser assim, fê-lo por amor, ele é bom e cuidou da menina afastando-a do mal: da fome, de uma mãe sem recursos e confusa e, agora, de um mau pai desnaturado, natural.
Ah, mas o povo, o bom povo, está atento, esse bom povo que quando é necessário apedreja, cospe e vilependia, está atento e a tempo reage.

Merda para a justiça
mais para os que nela não confiam,
como é o meu caso.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

O Guelas - Cópias minhas

Sim, não ia à escola há três dias. Saía de casa montava na carreta do Águamorna, nos quatro caminhos saltava e ala para o pinhal apanhar púcaras e outros cogumelos que não se podem comer mas que o Ti Alfredo compra, acho que para mandar para Espanha.
Hoje deu-me uma grande vontade de voltar.
Fui até lá mas não fui capaz. Fiquei no alto do cabeço de onde os via ir chegando e ficarem a brincar no recreio.
Eles estavam a jogar ao prego, elas brincavam à macaca.











Daqui ouço algumas vozes e distingui perfeitamente a voz dela. A sineta tocou, foram para dentro; o silêncio instalou-se; fiquei mais algum tempo, vi chegar o João a correr, atrasado como de costume, depois para ali fiquei na companhia do bico que não parava de piar. Dei-lhe algumas formigas, mas do que ele gosta mais ainda é de pão mastigado; começaram a crescer-lhe algumas penas, está espevitado e forte, vai safar-se com certeza. Cansado adormeci debaixo do pinheiro tendo acordado um pouco depois com frio. Fui até à vila e andei pelo mercado e pela rua junto ao rio; ía dando de caras com o mainate da herdade, o Severino, pirei-me a tempo, acho que não deu por mim.

***

A professora estava a corrigir os trabalhos de casa e nós a fazer uma cópia quando chegou um homem para falar com a professora. Ela saiu e a Joana ficou a tomar conta da aula; já apontou no quadro o nome do Rodrigo por se ter levantado e ter dado um carolo ao Rui, os outros desataram a rir e a gritar. Se ela não tirar o nome está tramado: fica sem recreio ou apanha, se calhar, as duas coisas porque não é a primeira vez.
A professora, voltou e trouxe com ela o Zeca. Ele foi para o lugar mas não se sentou; ficou de pé ao lado da carteira, a professora também não, ficou de pé em frente da secretária, virou a cara para ele e levantou as sobrancelhas. O Zeca disse:
-Peço desculpa, à soussora por ter saído da aula
-E…
-Por ter dito porra.
-Vais, ficar sem recreios até teres todas as cópias que não fizeste enquanto faltaste, senta-te.

Estou lixado, detesto cópias. Eles estão a brincar lá fora, gritam e riem, felizmente que tenho o bico por companhia, parece que ele gosta da escola, saltita no tampo da carteira, escorrega constantemente.
A Maria trouxe as amigas para brincar ao pé da janela, estão a jogar ao elástico,
agora está no meio, o cabelo e a saia saltam, está a abanar assim com a mão, parece que me está a querer dizer adeus,
olhou para mim, perdeu.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Da primeira, afiambrara-me a pensar que ia haver festa e a tipa atalhara de imediato: -Foi muito agradável, amanhã tenho montes de coisas para… -Não faz mal, eu compreendo, deixa lá. Dois beijinhos e aí estava despachado. Na verdade nem pretendia saltar-lhe logo, à primeira, para a cueca mas sabe-se lá, um café e um brandy, mais um pouco de conversa; criar alguma forma de aproximação. Era isso mesmo! A expectativa era essa. Oportunidade de a conhecer melhor, até porque mal a vi achei-a interessante: elegante, algo nervosa e armada de uma atitude que não deixa qualquer um pisar-lhe os terrenos.
Puta de vida. Outra vez? Teatro e cama? Vejam lá, eu ao deus dará! Merda pá ideia de a convidar, já tenho idade para ter juízo. Conversa porreira, pele macia, e alguma meiguice é o que não falta para aí. Foda-se, podia ter aceite o convite da do cartório, -é Olga ou Odete?-, ou ter telefonado à engenheira que cada vez que me vê não perde a ocasião de mandar a boca de que deveríamos combinar um programinha.
Puxo de um cigarro, uma e meia!.. -Traga lá mais outra. Bebo esta e piro-me. Bem… aquelas que entraram há bocado, estão para ali com fosquices, ainda vamos ter conversa, a morena até é jeitosa. Ora! Parece que adivinhava, não teriam mais ninguém a quem pedir lume? -Com certeza, faz favor. –Já agora, chamo-me Daniel. -Cristina e Sónia, é? –Muito gosto. –Ah, se estão sozinhas, faço-vos companhia, o que é que estão a tomar?
000

Até parece que te deixaste apanhar pelos TLEBS, ou foi por não estares completamente acordadita.

No jogo viril pretende-se de facto foder; as canelas o calcalhar d'Aquiles, o menisco etc. mas... sempre sem que o adversário e muito menos o arbitro possam dizer que foi por maldade.

Depois há o contexto.
Já viste o Erecteu abereisar-se de ti e segredar: -Fausta, Paixão minha, estou cheio de virilidade.
Tu rias-te, prantavas no blog e eu era objecto do maior gozo passando pelo Garfiar, Marias, acabando no Bino.
Por outro lado, se te bichanasse ao ouvido: ESTOU CHEIO DE TESÃO. Chamavas-me parvo, inconveniente, sei lá...

Bom adiante. O que interessa é que o Benfica lhes enfiou com duas nas nalgas, embora, lamentavelmente, não viesse de lá virgem.

Beijinhos

PS - Não desesperes. Também não compreendo as mulheres, e olha que bem me esforço.

Estranho fenómeno, este, o do referendo.

Ao contrário de 1998 este referendo, nesta altura, aponta para que seja vinculativo, por se configurar a possibilidade de uma participação superior a 50% de votantes:

O referendo está marcado para uma data que não coincide com férias;
Os abstencionistas terão sentido que deixaram uma questão importante por resolver;
A diferença foi escassa.
O SIM perde terreno face a um NÃO, quando este último se mobiliza, não é de admirar, é natural, contudo as sondagens, ainda, lhe são favoráveis.
Isto deveria ser motivo de satisfação para quem defende a despenalização do aborto mas, só o é em parte, porque a efectiva despenalização do aborto não é uma questão jurídica como se está a querer fazer crer.
A despenalização é dar condições à mulher para que, se o necessitar, o pratique em condições de total segurança clínica e psicológica, passe a redundância.
O SIM conta agora com o compromisso activo do PS -partido do governo-, de um número significativo de militantes do PSD –partido alternante- e dos restantes partidos com representação parlamentar, à excepção do CDS; naturalmente.

Como é que se sentirão motivados a participar os eleitores que, partidários do SIM, se vêem completamente abandonados, sem uma estrutura hospitalar e apoio médico ao nível dos cuidados primários de saúde?
O inferno dos hospitais, sente-se na pele, quando dele se necessita e se vê que não existe, Sta Maria, Prelada, S. José...
E quando afastados dos grandes centros, só os ecos noticiosos chegam para noticiar a morte de um e mais outro e outro, por falta de condições de apoio, logo esquecidas,

o inferno não existe?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O Guelas - História pouco edificante

Gosto muito da escola. Agora não tem sido muito bom, o Zeca tem faltado, espero que volte. Não sei se foi por se ter zangado com a professora.

Ele é nosso amigo, é bom, só é mau quando gozam com ele. Ensina-me muitas coisas. Ele sabe tanto! No outro dia apanhámos um passarinho que caiu da árvore, foi a Joana que o apanhou. Levámos à soussora e ela disse para irmos pôr na árvore qu’ele ia morrer. O Zeca disse: -Nã mórri nada. Su prantarem lá é que morri. A professora não gostou. Disse –Prantarem, prantarem… puseREM.
Os meninos riram-se. Ele não gosta nada disso e eles estão sempre a rir. A soussora até ralhou com eles.

Fomos pô-lo na arvore, quando tocou a sineta, ele pediu-me pão mastigou e pôs a cabeça do passarinho na boca dele e deixou lá estar algum tempo, punha e tirava, depois cuspiu-lhe pó bico. Voltou a pôr na arvore mas quando acabou a aula da manhã foi buscá-lo e pô-lo aconchegado no bolso da camisa. Metia água na boca e metia-a na boca do passarinho, por fim era com o dedo que deixava escorrer umas gotas e o passarinho já abria o bico.
Os meninos foram fazer queixinhas. –O Rolha tá com o passarinho. A professora foi ver. A professora deixou o Zeca tomar conta dele, até disse que o podia levar para a aula. Bem feito.

À tarde tivemos aritmética. Já estamos a estudar a tabuada dos seis. Aí é que foram elas. O Zeca é o que faz mais rápido de todos e eu acho que a professora não quer que ele faça como faz.

A profesora começou a escrever no quadro:
.
6X1=
6X2=
6X3=
.... e ele de seguida: Sês, dôzi, dezôito
A soussora parou, olhou para ele e perguntou.
–Quem te ensinou?
-Sê, vi mê paí fazêri!
Mandou-o ao quadro e ele fez:
-Ai é? E quando for 4 X 12, é igual a quê? Vais passar a tarde a contar bolinhas, é?
Ele fez logo de fugida nem pôs bolinhas:
Eu não percebi nada. Ela ficou a olhar para ele e disse: -Tá certo vai-te sentar. Quando ele ia a “assentar-se”, ela disse a rir –É a lei da rolha. Os meninos desataram a rir. Ele não se sentou; agarrou nas coisas pôs na sacola e ía a sair. A soussora perguntou:

-Onde vais, que é isso?
-Éi a lê da porra

Uma pérola, como as que usa no lóbulo.


Em artigo de opinião, in Sexta, 26 de Janeiro de 2007, a Sra. Dra. Maria José Nogueira Pinto, remata com a seguinte questão:

“É a estas perguntas que é urgente dar resposta. Ficamos à espera.”

Desculpe soutôra, gostei do magestático "Ficamos", mas quem sou eu, Erecteu, para me atrever a responder-lhe a tão elaborada reflexão, que remata vitoriosamente:

“Sendo os recursos escassos, o "sim" vai legitimar a redistribuição desses recursos em nome de uma política pública paga com os nossos impostos. Vão cortar na prevenção do cancro da mama ou do colo do útero? Vão passar de quatro para oito anos a lista de espera para o tratamento da infertilidade? Vão deixar cair, ainda mais, as disposições da lei do planeamento familiar, cortando consultas, anticonceptivos gratuitos e informação e formação às mulheres? Vão reduzir os médicos de família? Vão desinvestir nos doentes crónicos? Vão fechar os olhos às doenças neuro-degenerativas que afligem crescentemente os idosos? Vão fechar serviços de Saúde dificultando mais o acesso dos cidadãos? Como vai o Ministério da Saúde pagar a contratualização de clínicas privadas no caso, já dado como certo pelo ministro, de o SNS não ter capacidade de atendimento?”

E se lhe respondesse, de que valeria o trabalho? Sim, porque na melhor das hipóteses, vinte pessoas me leriam; se dessas metade concordasse, excederia as minhas expectativas, e por fim: comigo concordaria quem pensa como eu, o que significa que teria gasto o meu parvo latim para nada.
Aos méritos e competências que já lhe reconhecia, legitimamente, junto mais um: É UMA GANDA DEMAGOGA

Olhe Sra. Doutora, a Sra. já me emprenhou a cabeça, e agora?
Posso interromper voluntariamente?
------
PS: Ah, está preocupada com questões orçamentais e operativas?
Já leu, a esta hora concerteza,
exactamente na mesma edição em que opinou.
Em 86 pelo eqivalente a 1,25 €, resolvia-se o problema.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

O Guelas - O Sol que ilumina também cega

Chegámos ao fim da quarta. Fizemos exames. Fiz dois, o da Quarta e o de Admissão aos Liceus; alguns fizeram três como foi o caso do Zé Rolha que também fez o exame de Admissão às Escolas Industriais e Comerciais, não acreditava que se safasse mas, não sei como, lá se safou.
O Zeca como gostava de ser chamado, era um tipo estranho. Ficou Rolha porque o meu Pai conhecia o dele de ginjeira. Não enganava ninguém até que teve a sorte que merecia. Foi dentro quando quis organizar uma revolução lá na herdade.
Um dia à frente do rancho das mulheres disse que no dia seguinte não queriam trabalhar porque era um de Maio. O meu pai já sabia de tudo; uma semana antes, estivera lá a jantar o inspector Faria e alguns colegas do Pai, tinham informações de que se preparava qualquer coisa.

– Amanhã patrão, não trabalhamos.
– Não trabalham, não ganham.
– É assim mesmo patrão, não ganhamos e ganhamos, disse com um sorriso nos olhos.
– Depois veremos.
– Depois de amanhã, patrão, veremos.

Teimava em ter a última palavra. Era o melhor corticeiro da herdade, como fora o pai e o avô mas não saía em feitio aos velhos Rolhas. Fernando Pucarinho degenerara: assinava o nome e pouco mais, mas já desde miúdo, como aguadeiro, arvorava ares de sabichão.

* * *

Reunimo-nos antes de o sol raiar, o frio cortava – em Maio cerejas ao borralho.

Pusemo-nos a caminho do açude cantando.

"Boa herva é o poejo,
Que faz açorda aos ganhões.
É a primeira que vejo:
Cantar chibos em funções

Ôlivêras, ôlivêras,
Ao longe são ôlivais:
Por muito que tu me quêras,
Ainda te quero mais!

Por causa de um saramago
Arranqui um pé de trigo.
Olha a vontade que eu trago,
Amor, de falar contigo!"

O dia amanheceu coberto de uma neblina densa acompanhada de chuva miudinha. Tínhamos os pés molhados e gelados quando chegámos ao açude, o rancho estava animado porque o sol prometia vencer. Dirigimo-nos para os sobreiros grandes onde se fará a merenda.
Outro rancho chegou da Herdade dos Coutos, assumindo ao cabeço Manuel Pombinho cantava:
.
"Regala-me o tê cantar,
E o tê cantar me regala;
E ê regala-me ôvir dar
Reqebros à tua fala"
.
Ao que o nosso respondeu:
.
"O sol, quando nasce, é rê
E às dez horas é c'roado
E à tarde já vai doente,
E à noite é que é sepultado."
.
Os ranchos não tardaram em misturar-se. Apartei-me com Pombinho para conversar-mos. De repente a algazarra quedou-se. Olhei para o alto e vi a fila da guarda a cavalo que se dirigiu, a trote formando um largo arco.
-Manuel Pombinho , Fernando Pucarinho, estão presos. O resto segue para as herdades. Já. - esganiçou em falsete o tenente, sabre na mão.
Seguimos no meio de dos seis cavalos. No alto do cabeço, vi por cima do ombro, os ranchos apartados seguirem ladeados pelos cavalos e bestas. Recebi do tenente uma chibatada em pleno rosto que me cegou, ou foi do sol que despontava com toda a força?

* * *
No dia seguinte, franzina, a mana Bia destacou-se do rancho:
-Patrão, a partir de hoje, a gente trabalha oito horas.

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nota: quadras recolhidas:
in José Leite de Vasconcelos, OPÚSCULOS.Volume VII – Etnologia (Parte II),Lisboa, Imprensa Nacional, 1938

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

O Guelas - so chicha

SIM, ela foi sempre minha companheira mas nunca ficámos juntos na mesma carteira. É muito boa aluna a tudo mas dizia que eu é que era esperto, só porque a ajudava nas contas.
Sentava-se de lado a fazer as cópias, os ditados também; quando acabava, olhava para mim. Parecia que olhava por baixo do braço e sorria um pouquinho mas eu, então, não tinha a certeza. Quando a sousora me deu o livro, fiquei muito contente. Gostava de ler e gostava quando a professora dizia que eu tinha boa entoação. Dava era muitos erros; não vos digo quantos porque uma vez, na tropa, disse e os camaradas chamaram-me pintor. Só vos digo que cada erro era uma reguada e que eu era o único que não levava a dose toda. Esticava a mão e não fugia com ela, apetecia-me muito fugir mas tinha medo que ela estivesse a olhar. Via a régua a subir e pensava, vai doer, vai doer muito, muito e depois… doía menos.

No intervalo ela brincava com as amigas e poucas vezes me via, até porque as professoras não queria que brincássemos com as meninas, mas às vezes deixava, diziam que era quando não estava a senhora directora.
Parece que quando eu não levava a merenda, ela adivinhava. Vinha ter comigo e dizia –Ajuda-me que eu não consigo. Até o leite me dava! Os lanches dela eram tão bons! Umas vezes eram doce, eu perguntava e ela dizia: tomate, pêssego, amora, eu comi de tudo, até de morango que esse é que era muito bom, deixava cá um gosto nos bêços! mas também havia de ovo, de queijo e uma linguiça mole, muito boa.
-É isto que é “só chicha”! Dobrou-se para a frente pôs as mãos juntas entre as pernas, os cabelos tombaram para a frente; atirou-os para trás e disse a rir, segurando-me o braço -SAL-CI-CHA.
Gostava de salciha, mas gostei mais de a ver rir, SIM

domingo, 21 de janeiro de 2007

O Guelas

Sim, conheci-a no primeiro dia de escola. Fui dos primeiros a chegar. Na sacola de pano que a minha Mãezinha fizera, pouco havia: um lápis partido, um caderno novo de duas linhas, os sapatos e um pão com linguiça –Não o comas todo de uma vez, não sejas lambão, dissera-me aquela santinha; -Não penses que pode ser todos os dias assim, acrescentara ela. Viera primeiro de boleia na carroça do Águamorna, até aos quatro caminhos. Ao princípio foi bom, ia contente, ia prá escola! Depois deu-me o sono e devo ter adormecido porque o Água gritou: -Moço dum cabrão, salta Zeca. E eu saltei.
Vim por lá fora e para ali fiquei sentado no muro. Já me doía o cú e me regelavam as nalgas quando chegou o primeiro menino. Sentou-se lá longe a mirar, ora os meus, ora os pés dele. Não sou parvo, tirei a merda dos sapatos da sacola, calcei-os; o magano não foi capaz de me olhar outra vez, pantomineiro! Depois, ao mesmo tempo, começaram a chegar os outros que vinham pela mão das mães. Iam logo lá pra dentro e alguns desatavam a chorar quando as mães se queriam ir embora. Estava a ser giro, os meninos da vila são mesmo esquisitos. Já se me arrepanhavam os pés quando ela chegou. A mãe levou-a até ao portão, deu-lhe um beijinho, acenou à soussora e disse-lhe vai, e ela foi. O recreio foi ficando deserto. E tu, não vens?
Mandou-me sentar, fiquei lá no fundo, ainda bem. Via a sala toda e via tudo lá para fora. Depois disse muitas, muitas coisas, já não sei o quê. Mandou-nos tirar o material(?); tirei o caderno e o lápis; mandou-me tirar tudo; tirei o panito com a linguiça e riram-se todos, quase todos, só ela não se riu. Não percebi. A soussora, a rir, perguntou-me: -E o livro? –Qual livro? –só ela não riu. A professora saiu e voltou com um livro novinho, perguntou-me como me chamava, disse-lhe que era Zeca, e ela que era José, prantou-lhe o meu nome, deu-mo e disse que cuidasse dele.
Tocou a sineta, fomos todos brincar. Eu fiquei a vê-los, corriam e empurravam-se, gritavam muito; ela ficou sentada no degrau do alpendre. Fui ao pé dela, mostrei-lhe o meu guelas. Olhou para ele e depois ficou a olhar para mim. As meninas têm uns olhos tão lindos, tão lindos… gostava de ter os olhos dela; entravam pela minha cabeça, doces, mas sem saber o que diziam. –Queres? Mordeu o lábio, atirou a cabeça para o lado, o cabelo esvoaçou para ficar poisado no ombro, quase loiro brilhava ao sol de Outubro, dia sete; ficou assim algum tempo, muito tempo. Fui-me embora, senti passos atrás de mim, pegarem-me na mão.
Ao voltar-me via-a muito séria, de mão estendida dizer-me baixinho: -SIM

© Vicente Rodríguez-Madridejos Ortega (alterado o formato)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Comadres e compadres

estou com a

Houve tempos e lugares em que pessoas eram donas de pessoas.
Noutros tempos, pessoas eram donas das terras e de tudo o mais que lá estivesse; às pessoas que lá estavam, chamava-se servos da gleba. Sobre os servos da gleba tinham os senhores poderes e direitos, hoje, difíceis de conceber.
Por três vinténs tinham a primazia de aceder às donzelas dos seus domínios, diz-se, porque desses tempos já cá ninguém mora que o possa assegurar. Tempos que já lá vão.

Desses tempos há contudo reflexo – o latifúndio. Esta situação gerou uma cultura peculiar. O senhor não larga mão dos seus direitos, mas tem de ceder por forma a que o assalariado não faça a trouxa e parta para o Barreiro.

Na grande propriedade o trabalhador recebe, por vezes, autorização de construir a sua própria casa, quando lá trabalha. Acontece, porem, que a casa é uma benfeitoria em terreno alheio, sujeita a tributação mas de inviável registo de propriedade. Quanto à subsistência, sujeito à contratação, recorre ao rabisco e ao rabiscão para fazer face às suas necessidades, entenderam? – Então eu explico, tomando por exemplo a azeitona.
O rabisco consiste na apanha da azeitona que cai fora das lonas de recolha, quando a oliveira é varejada. São grupos de familiares que seguem os trabalhadores: idosos, crianças e outros desocupados.
O rabiscão, é um direito consensualmente adquirido pelos assalariados de voltarem a varejar as oliveiras, passado um tempo, a fim de recolherem a azeitona verde que teimara em ficar agarrada à arvore.


É preciso muita arte para varejar com a força suficiente para que a azeitona caia fora da lona, e para que muita lá fique sem cair, esperando pelo rabiscão

Vivo no segundo maior concelho da Europa, com uma área muito próxima dos 1500 Km2, tem 10 habitantes por Km2, diz a estatística.
Acontece que metade vive na cidade-sede, a outra metade distribui-se assimetricamente por três sedes de fregesia e mais meia dúzia de lugarejos.
Há propriedades privadas com área superior a alguns concelhos da grande Lisboa.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

A BATALHA DAS CONSCIÊNCIAS

...
Jacinta Romão in Quarta, 10 de Janeiro de 2007

Está lançada a guerra.
À partida o "NÃO" está em condições de ganhar, temo.
Assim penso porque o SIM, irá defrontar uma opinião sustentada por uma instituição organizada, poderosa e supranacional. Acresce, a isto, que a campanha pelo não, esgrime os seus argumentos recorrendo à chantagem emocional, à manipulação afectiva e não só.

Pasme-se! Eurico de Melo reforça o "não" com a ideia de que a decrescente demografia requer que as mulheres portuguesas aumentem a sua produção!
O liberalismo estaca a fundo nas questões económicas, porque a liberdade de consciência, aí, não tem lugar.

Para quê legislar sobre uma matéria, diz uma senhora -com ar de muito senhora-, que, há mais de trinta anos, não remete para a prisão nenhuma mulher que tenha praticado o aborto clandestino?
Palavras para quê? O estado confronta-se com uma realidade que está desajustada juridicamente, ignora-a; tropeça com na sua falta de capacidade e de vontade em cumprir o seu papel social em relação às crianças, que por aí andam, sem quem lhes valha económica e muito menos afectivamente.
Será que o "não" esta carente e saudoso de um lumpemproletariado, ou está seguro da sua capacidade de gestão da mão de obra de que tanto carece?
Pede-se às mulheres que ponham à disposição da nação a sua função reprodutora; que sejam um passivo objecto parideiro.

"NÃOS", NÃO ME EMPRENHEM, POR FAVOR

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

à falta de

computador
o que é que um bom chefe de família faz?

Levanta-se olha para o rlógio, pragueja que nem Capitão Adhoc, fuma um cigarro, avia um panito com manteiga mais um lête com nescafé; de novo: pragueja, avia outro cigarrito e um café expresso.
E agora?
O dia está lindo. Vai comprar o jornal e dá-se conta que a cidade mostra restos de uma desusada movimentação! Gaita vou até lá. Uma merda, é que vais. Estradas cortadas. Desiste.

Quando desiste percebe que autocarros estão à disposição. Avesso a dependências de mobilidade vacila. Por fim resolve-se: Porra, não tenho nada para fazer -o que é mentira.
Vai.


Há tipos que me fazem inveja.

Fora do sistema levam a sua, à sua maneira

Jacinta, - até Lúcia poderia ser, é Elisabete que arrebata

Não dava nada por eles. São impressionantes! Rugem, saltam, ameaçam despistar-se.

Felizmente que ainda há coisas para aprender.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

O orgulho de ser…

pORTUGUÊS

Naquele tempo um pequeno país tornou-se grande quando atrevidamente um povo saiu à rua, atrás de trinta capitães, por sua vez à frente de trinta chaimites e trinta dúzias de soldados.
Foi uma bronca –caiu o Carmo- felizmente salvou-se a Trindade mais a Portugália.
Cum catano! EnLataram o Caetano mais o contra-Almirante de Belém, exportaram-nos prá Madeira, a caminho de um país fraterno, abençoado por quem ? –por Deus!
Deus Thomás e Marcello lá se foram e nós felizes por cá ficámos despreocupados mas atentos e popularmente organizados.

Atentíssimos:
À Junta de Salvação Nacional -enviámos General de monóculo e tudo para a franquíssima Espanha, que então garrotava os indisciplinados etarras;
Escaldados com primaveras marcelistas atalhámos verão quente;
Saímos à rua em Novembro e voltámos, depois, ordeiramente para casa; perdemos o camarada Vasco mais o Clemente e um Salgueirito mas ganhámos um ganda Ramalho;
Constituímos uma nação Socialista, cantando e rindo: PAZ, PÃO, SAÚDE, HABITAÇÃO;
Elegemos um Governo Democrático que remeteu o socialismo para uma gaveta;

Foi uma espécie de milagre das rosas:
Escapámos aos perigos das falsas promessas do estalinismo e vivemos hoje, abundantemente o europeísmo. Esforçamo-nos incessantemente, em vão, para nos destacarmos.
Quando quase obtínhamos uma posição dos mais menos, eis que os nossos parceiros alargam a comunidade para 27. Porra é demais!
Mas, nós somos um povo lutador. Não são uns quaisquer latino Romenitos que nos tirarão o nosso lugar na história; os Búlgaros que se cuidem não nos baterão em “bulgaridades".

Guiados socraticamente prosseguiremos confortados pela palavra, pelo olhar, pela firme candura do nosso querido e estimado líder, que de reforma em reforma, até um final, dá o exemplo da construção de um regime liberal, competitivo, rumo a objectivos que fazem roer de inveja, os atrasados países, ainda atracados ao estado social.

Professores, médicos, bancários, servidores públicos, OPERÁRIO, MILITARES E CAMPONESE, unidos, hão-de oportunamente valorizar uma época de gloriosa concertação de poder. Aníbal e José, despidos de ambição, alheios às críticas das respectivas bases de apoio, ultrapassando os seus ideais, dão mãos a favor dum povo ingrato, mal habituado, para não dizer de maus costumes.


A convergência de centro esquerda de Aníbal acolhe o cândido José de centro direita, espadanando contra os infiéis, sem se atemorizarem com hordas ululantes.



Se soubésseis quão difícil é governar…
Mas, julgam que é por prazer que um Governo trai a palavra, dada a quem lhe legitimou o poder?
Bom vou deixar-me desta merda de lenga-lenga, que só veio a propósito desta notícia:


A Administração Fiscal não conseguiu cobrar 1,6 mil milhões de dívidas porque os contribuintes provaram que tinham razão. Relatório do Tribunal de Contas mostra várias ilegalidades nas contas do Estado.
IN
Sexta, 5 de Janeiro de 2007


Vêem como, com inexcedível zelo e parcimónia tomam conta de nós?
PAGUEM E NÃO BUFEM, SERÃO MUITO MAIS FELIZES

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

o pouco que muito bem sabe

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O dia ainda mal despontara, Nereu despertou, dirigiu-se à gelada cozinha, junto à chaminé quatro embrulhos. Sentou-se à mesa observando-os; avaliava-os pelo tamanho. Maria foi dar com ele a tiritar. –Não os abres,? Foi-se ao papel. –Com jeito, homem de Deus, ainda disse Maria; mas já era tarde; o primeiro embrulho esventrado revelou umas calças de fazenda, o segundo, com a ajuda da avó, como ele bem previu, uma camisola de lã, o terceiro, não podia ser, dois pares de meias, duas cuecas e duas camisolas interiores de manga comprida; do quarto, o grande, despontou uma samarra. Era assim o menino Jesus. Nereu viu apertar-se-lhe o coração. A esforço vestiu as calças para que Maria verificasse a altura da bainha, a pesada samarra com gola de pele, um pouco grande para o seu tamanho, encheu-o d’orgulho mas não lhe desembaciou os olhos.

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Ainda cedo, dois enormes tachos ocuparam as mesas montadas no pátio; destapados, ofereceram aos olhos e aos narizes os restos das consoadas daquelas cinco casas: bacalhau, pescada, polvo de meia cura, os legumes (batata, cenoura cebola, couve) ovos cozidos, tudo desfeito e migado era por fim regado com o azeite onde o alho, abundante cebola, e colorau tinham visto uma boa fervura.
Senhoras e senhores, é a festa da “roupa-velha”.
Um alvoroço, uma indisciplina. As conversas cruzam-se, risadas lançadas com corpos perigosamente balançados, repetidas loas ao manjar e às cozinheiras, ao tinto e ao branco que não lhe ficava atrás. Uma alegria em crescendo, as crianças não paravam quietas nos seus lugares, enquanto os adultos, vai mais um bocadinho e ai está tão bom, só mais uma colherita. Por fim a louça começava a ser levantada para ceder lugar às esperadas guloseimas que iam chegando: Doce de girimum da Conceição , filhozes da Vitória, rabanadas de vinho branco da Graça, sonhos da Adelaide, cada um trouxe o que tinha para dar, e Maria? Maria retirou-se. Retirou-se para voltar com uma travessa ainda mal encetada. Os convivas olharam desconfiados, nunca se vira tal coisa no Natal. Educadamente provaram e… choraram por mais, pois então. –Mas que é isto Maria? Maria, moita. Puseram-se a adivinhar: -Tem amêndoa. –Qual quê, tem, tem… mel com avelãs, não é Maria? Maria, ria-se e moita. –Vá lá Maria, o que é?

sopa dourada. E mais não disse.

Não parece bem, mas o termo é: atestados. Atestados e alegres, que ía longo o almoço de Natal, Maria da Graça lá se conseguiu fazer ouvir: -Meninas -ela que até, de qualquer delas, filha podia ser! -vamos ou não? As mulheres lá se foram, os homens deixaram-se estar; beberricando o bagaço, sorvendo o café; elas não tardaram a voltar com alguns embrulhos. Margarida saltitava de contente, Nereu deixou-se contagiar; Maria da Graça, fez de mestre cerimónias:
–O Menino Jesus à pressa fez trapalhada. Ele também é trapalhão sabiam? – risos na geral, chiadeira dos miúdos- Vejam que deixou na arrecadação estas prendas que dizem… Margarida e Nereu, tomem lá. Rasgaram os papeis sofregamente.
A Margarida calhou um jogo de cozinha e outro de enfermeira. –Com touca e tudo, gritava ela;
a Nereu, um carro de bombeiros que o deixou rouco, uma harmónica que o deixou mudo.

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Por fim, retirada a loiça suja, Manuel Carvalho sugeriu que fossem até ao salão dos bombeiros. -Tragam agasalhos que se vai pondo frio.
Cada um à sua maneira, aperaltados, formaram o rancho: os homens atrás se iam deixando ficar; de braço dado, em linha, seguiam as mulheres pelo meio da estrada; à cabeça de mão dada, as crianças eram alvo de ansiosa observação até que finalmente viram Nereu deitar a mão ao bolso e estacar primeiro, rodar sobre os calcanhares e depois soerguer lentamente à altura do rosto um par de luvas em lã cinzenta.
Desconcertado olhava para elas que se riam e aplaudiam;
a alegria delas perturbava o seu último agradecimento ao Menino Jesus

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

123... CHEZ MARIA

Assim quis começar.
Teimou mas não levou a melhor. Mas transmontana, mesmo mansa, se lhe dá a tramontana ou gana… Uiii!

Partiu para outra, maison.
Assim se abriu a Dr. disposta a desenrolar o que lhe ía pela alma, pela cabeça, ou talvez por aquele corpinho todo, até.
Mas, até ela se engana!


10 filmes de Oliveira despacha-os num instante, mais à maneira de Spike Lee, Almodovar e outros tantos juntos. Sim, enganou-se que de Manoel nem se abeira aos calcanhares... da chatice, claro; contudo, no mínimo, iguala-o em sentido estético.



Não sendo supersticiosa, está-se cagando para que tachos, panelas ou mala voem ou não voem, se a mala aterra ou não nos tomates do primo. Uma coisa vos garanto: se está mal… MUDA-SE.
Boa rapariguita, tem tido ocasião de experimentar os melhores serviços que o mercado disponibiliza: ele é o melhor enchido lá do talho, os updates informáticos, em mão propria por competentes calças de ganga e camisolas práticas; prelecções de insignes Professor Zigurate, eu nem digo que mais! Sigam por lá acima. Um primeiro ano de pura delícia literária.

Bom, estou para aqui a tecer laudas mas… não julguem que é conformada a santa, porque não é mesmo. Quem seja desprovido de braços para envolver, língua para saborear e pernas para abraçar, melhor será que se dirija ao bengaleiro, recolha boné ou sobretudo e se retire atempadamente.

Estão lá no fundo à vossa disposição: rebobinem a fita três “ânusitos” e depois contem.
Pessoalmente não lhe dou qualquer especial importância, porque quem o GIFT tem não merece qualquer outro reconhecimento. Para ela é tudo tão "fácil" !




Um (e)terno beijinho do teu



Erecteu

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Vou fugir

a todos um bom final de ano

UM NOVO ANO MUITO FELIZ

mas voltarei

Obrigado a todos.

O prometido é devido, aqui tou felizmente inteiro.

Espero que tenham passado de um ano para o outro com alegria; que este vos traga saúde e felicidade é o que vos desejo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Manhã

Os dias, embora curtos, foram-se arrastando por aquela semana, Nereu não se aquietava até que, uma tarde enquanto cumpria a sesta obrigatória, ouviu a porta do pátio; Adelaide entrava acompanhada de uma menina -Margarida chegava a casa dos avós, para passar as férias, agora que entrara para a escola. Logo que pôde, Nereu, desceu ao pátio, para ali se entreter jogando as suas caricas; certeiramente visava ora uma ora outra, não tardou que se sentisse observado; mudou de jogo, agora percorria uma pista desenhada a carvão no chão cimentado, cumprindo escrupulosamente todas as regras; Margarida observava de soslaio enquanto compunha a boneca que repousava nas pernas; Nereu afoito lançou uma tampa com mais força, Margarida seguiu com o olhar o deslizar do pequeno pedaço de lata até este se deter a escassos palmos dos seus pés; hesitou, olhou Nereu, pegou nela e dirigindo-se a ele de mão estendida disse: -Toma.
Tão simplesmente começou aquela amizade, como aquelas que só distancia e muito tempo fazem esquecer.

Nereu ao acordar, vigiava a casa de Adelaide; aparecida Margarida voava escadas abaixo ao seu encontro; Adelaide colocava, ao sol, uma manta de retalhos onde os catraios se entretinham em brincadeiras comandadas por Margarida; Nereu, trocou as caricas por conchas que eram tachinhos, bonecos e caminhas; aprendeu com prazer brincadeiras de menina.

O resto da semana voou.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Chegou a "cexta"

O sol tocava a igreja quando entravam no pátio. Maria recebeu a cesta que Rosa entregara com a recomendação de que Maria fosse à Quinta falar com D. Gertrudes.
-Vó, o Menino Jesus existe? Maria e Alfredo olharam-se. –Existe pois, disse Maria. –Bem… existe pois, arremedou Alfredo. –Dá prendas à gente?
Voltaram a trocar olhares; -Dá pois, aos que se portam bem, juntava-se Maria da Graça, à conversa.
Maria puxou pela mão do pequeno; -Vamos que se faz tarde, anda lavar-te.
Retirou da parede o alguidar de zinco, colocou-o no chão, verteu-lhe um jarro; levou a braseira para a cozinha, voltou com a panela de água a ferver da qual, cuidadosamente, despejou parte. Estava tudo pronto: Maria esfregava, Nereu protestava: era a água que estava quente, era o pano que arranhava, era o sabão nos olhos; por fim ao verter-lhe pela cabeça e pelo corpo o que sobrara da água aquecida, era que estava fria.
-Olha a minha sina, desabafou Maria, enrolando-o numa toalha; carregou-o até ao quarto.
-O que é que o Menino Jesus me vai dar? –Alguma roupa p
or certo, disse-lhe a Avó. –Oh, fez Nereu. –Mas o que querias tu, meu filho? –Umas luvas, Vó, umas luvas.
Valha-me Deus, para que queres tu as luvas?

Enquanto acabava o jantar, desfez a cesta coberta por um pano de linho bordado a ponto cruz, que a cobria: uma couve galega, duas postas de bacalhau; peras rocha, cenouras e nabos acondicionavam uma garrafa de azeite, por baixo de uma folha de jornal as batatas forravam o fundo.

O Menino Jesus de Maria chegara mais cedo

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

domingo, 17 de dezembro de 2006

Ainda é quinta

Rosa pousou a cafeteira, retirou o prato; voltou com o passador de pano e serviu habilidosamente o café, para si e Alfredo, sentou-se; Nereu levantou-se, retirou o seu prato que pousou na pedra de granito ao lado do lava-loiça, preparava-se para se escapulir mas foi travado; –Fruta. –Não quero; Rosa não se comoveu, –Toma, estendeu-lhe uma maçã. Contrariado deu-lhe uma dentada, -Posso ir lá para fora? –Trás o paliteiro; cumpriu e raspou-se direito à’dega.
Para ali ficaram beberricando em conversa perdida às tantas interrompida pelos sons da sanfona. –Lá tá ele, convencido que sa… -Deix’ó, interrompeu Alberto, deix’ó tomar o gosto. Os sons continuaram desordenados percorrendo a escala, ora subindo ora descendo, os tons cumpriam sem regra, caprichosas intensidades; -Faz-se hora, disse Alfredo ao levantar-se, -Vá com Deus. Desceu a escada e deu com ela de costas, imóvel. –Boa tarde, Sra. D. Gertrudes. –É o rapazito que toca?-Quer dizer…, é sim, minha senhora. –Ao lanche mande-o ter comigo, respondeu-lhe, virando-se de novo para mirar, ao fundo, o que se adivinhava do ribeiro.
Alfredo foi pr’ádega, interrogando-se do que quereria a velha. Ao entrar ficou a observá-lo: cabeça descaída levemente inclinada para ali estava o gaiato, suavemente dedilhando, por vezes franzia o cenho e tentava repetir sequências de sons; ao dar por ele parou de imediato, esfregou as mãos nas pernas e pediu-lhe –Toca? Não havia forma de escapar. –Só uma. Foi essa e mais duas antes de lançar mãos ao trabalho.

Dirigiu-se ao alambique que iria fazer um ano que estava parado, enorme, na sua dignidade de cobre velho, era bem capaz de queimar de uma vez uns bons três almudes; ajudado por Nereu foi-lhe devolvendo pacientemente a sua cor e brilho à medida que ia retirando o verde, uma após outra a sua roupa ia também saindo até ficar em tronco nu com o suor a escorrer-lhe por todo o corpo. Por fim, percorreu-o em volta, mão no rim, em rigorosa inspecção, acendeu um três vintes, deu-se por satisfeito.
Lavou-lha a cara, os braços e as mãos sem piedade nem dó pelos queixumes, dadas as últimas recomendações, entregou-o a Rosa, lá na cozinha; esta por sua vez concluiu o que Alfredo começara tentando pentear o teimoso cabelo de redemoinho indomável; conformada acompanhou-o pelo longo e escuro corredor, interrompido a meio por três degraus. Fez-se anunciar antes de introduzir Nereu. Na enorme sala nem o fogo da lareira nem os quatro imponentes janelões bastavam completamente ao frio e à claridade; a voz de Gertrudes soou por detrás de um cadeirão, –Anda sentar-te aqui. Nereu, pequenino, seguiu pela mão, sentou-se à frente da Sra.; esquecido da lição para ali ficou sentado, mordendo o lábio inferior, batendo com os calcanhares no sofá; angustiado viu Rosa sair para ir buscar o chá. O interrogatório parecia não ter fim mas lá foi respondendo: –Nereu; –No pátio; –Com a minh’avó; -Maria; –Maria Mota, e assim por diante até o chá chegar; mas nem ele nem as bolachas o confortaram. Com o tempo ou pelo adoçar dos olhos de Gertrudes, a voz foi-se soltando.
Sim minha senhora, gosto de música, mas não sei tocar nada. Gertrudes levou-o até junto do piano. Gostavas de aprender? Elevando os olhos para ela, respondeu com a voz embargada: Gostava muito, minha senhora.
Afagando-lhe a cabeça, Gertrudes: –Então está bem .
Pobre criança saberá onde se pode meter?