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Ainda cedo, dois enormes tachos ocuparam as mesas montadas no pátio; destapados, ofereceram aos olhos e aos narizes os restos das consoadas daquelas cinco casas: bacalhau, pescada, polvo de meia cura, os legumes (batata, cenoura cebola, couve) ovos cozidos, tudo desfeito e migado era por fim regado com o azeite onde o alho, abundante cebola, e colorau tinham visto uma boa fervura.
Senhoras e senhores, é a festa da “roupa-velha”.

Um alvoroço, uma indisciplina. As conversas cruzam-se, risadas lançadas com corpos perigosamente balançados, repetidas loas ao manjar e às cozinheiras, ao tinto e ao branco que não lhe ficava atrás. Uma alegria em crescendo, as crianças não paravam quietas nos seus lugares, enquanto os adultos, vai mais um bocadinho e ai está tão bom, só mais uma colherita. Por fim a louça começava a ser levantada para ceder lugar às esperadas guloseimas que iam chegando: Doce de girimum da Conceição , filhozes da Vitória, rabanadas de vinho
branco da Graça, sonhos da Adelaide, cada um trouxe o que tinha para dar, e Maria? Maria retirou-se. Retirou-se para voltar com uma travessa ainda mal encetada. Os convivas olharam desconfiados, nunca se vira tal coisa no Natal. Educadamente provaram e… choraram por mais, pois então. –Mas que é isto Maria? Maria, moita. Puseram-se a adivinhar: -Tem amêndoa. –Qual quê, tem, tem… mel com avelãs, não é Maria? Maria, ria-se e moita. –Vá lá Maria, o que é?Não parece bem, mas o termo é: atestados. Atestados e alegres, que ía longo o almoço de Natal, Maria da Graça lá se conseguiu fazer ouvir: -Meninas -ela que até, de qualquer delas, filha podia ser! -vamos ou não? As mulheres lá se foram, os homens deixaram-se estar; beberricando o bagaço, sorvendo o café; elas não tardaram a voltar com alguns embrulhos. Margarida saltitava de contente, Nereu deixou-se contagiar; Maria da Graça, fez de mestre cerimónias:
–O Menino Jesus à pressa fez trapalhada. Ele também é trapalhão sabiam? – risos na geral, chiadeira dos miúdos- Vejam que deixou na arrecadação estas prendas que dizem… Margarida e Nereu, tomem lá. Rasgaram os papeis sofregamente. *
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Por fim, retirada a loiça suja, Manuel Carvalho sugeriu que fossem até ao salão dos bombeiros. -Tragam agasalhos que se vai pondo frio.
Cada um à sua maneira, aperaltados, formaram o rancho: os homens atrás se iam deixando ficar; de braço dado, em linha, seguiam as mulheres pelo meio da estrada; à cabeça de mão dada, as crianças eram alvo de ansiosa observação até que finalmente viram Nereu deitar a mão ao bolso e estacar primeiro, rodar sobre os calcanhares e depois soerguer lentamente à altura do rosto um par de luvas em lã cinzenta.

























